
O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), decidiu permanecer no comando do Palácio Guanabara até 5 de abril, data final prevista na legislação eleitoral para que ocupantes de cargos no Executivo se desincompatibilizem e possam disputar as eleições de 2026. A decisão encerra, ao menos por ora, os rumores de que ele poderia deixar o governo logo após o Carnaval para antecipar a articulação política com vistas a uma candidatura ao Senado.
Na semana passada, Castro comunicou oficialmente sua posição ao presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, primeiro na linha sucessória estadual. O magistrado havia sido procurado para se preparar para uma eventual interinidade, hipótese agora descartada até o início de abril. Fonte: Agenda do Poder.
Prazo legal e cálculo político
A escolha de Castro tem forte componente estratégico. Pela lei eleitoral, governadores que pretendem concorrer a outro cargo em 2026 precisam deixar a função até seis meses antes do pleito. Ao permanecer até o último dia permitido, o governador mantém o controle da máquina administrativa e do capital político associado ao cargo, evitando um vácuo de poder em um momento considerado sensível para sua base.
Nos bastidores, aliados avaliam que a permanência até abril garante a Castro maior capacidade de influenciar alianças, fortalecer candidaturas do PL e de partidos da direita fluminense e consolidar sua própria imagem junto ao eleitorado conservador, especialmente na área da segurança pública.
Quem assume se Castro sair em abril
Caso Castro deixe o cargo no prazo legal, em 5 de abril, o comando do Executivo estadual será assumido interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, conforme determina a Constituição do Estado, diante da vacância simultânea do governador e do vice.
Diferentemente do que costuma circular no meio político, o presidente do TJ não fica automaticamente limitado a um curto período no cargo. O artigo 142 da Constituição Estadual prevê que, em caso de vacância, o interino deve convocar eleições em até 30 dias. Na prática, porém, o cumprimento de prazos eleitorais, o registro de candidaturas e eventuais recursos judiciais podem estender a permanência no Palácio Guanabara por até dois meses.
Discreto e avesso à exposição política, Couto tende a exercer a função de forma técnica, sem buscar protagonismo. A expectativa é que ele se apoie em um grupo restrito (três ou quatro auxiliares de absoluta confiança) para despachar os assuntos essenciais da administração estadual.
O que o interino pode — e não pode — fazer
Embora ocupe formalmente o cargo de governador, o presidente do TJ, como interino, atua sob limitações políticas e institucionais. A tradição no estado é de gestão conservadora, focada na manutenção de serviços, cumprimento do orçamento e decisões administrativas inadiáveis. Medidas de grande impacto político ou mudanças estruturais costumam ser evitadas para não gerar questionamentos jurídicos ou acusações de abuso de poder.
Segurança pública como vitrine eleitoral
Até abril, a estratégia do governador passa por intensificar grandes operações policiais e ações de impacto, em uma tentativa de se projetar como líder firme no enfrentamento ao crime organizado. Auxiliares admitem, reservadamente, que o objetivo é reforçar a narrativa de combate à violência e dialogar diretamente com o eleitorado que vê a segurança pública como principal preocupação.
A mais recente dessas ações, uma megaoperação policial que resultou na morte de 122 pessoas,é apontada por críticos como exemplo de uma política de segurança voltada à exibição de resultados duros às vésperas do calendário eleitoral. Para aliados, porém, trata-se de uma demonstração de autoridade e alinhamento com a pauta defendida pela direita fluminense.
Com o comando do estado garantido até o início de abril, Castro pretende usar o tempo para consolidar sua pré-candidatura ao Senado, fortalecer aliados e deixar o governo com a marca de uma gestão alinhada à sua base política, antes de entregar o cargo, ainda que temporariamente, ao Judiciário fluminense.