
Localizada em Rio das Pedras, na Zona Oeste, a Clínica da Família (CF) Helena Besserman Vianna há mais de dois anos realiza o sonho de pessoas que não tiveram a possibilidade de estudar. O projeto Escrevendo Histórias promove alfabetização de adultos e idosos da região e já beneficiou mais de 30 pessoas. A boa ação foi apresentada na Conferência Mundial de Medicina de Família e Comunidade (WONCA World) 2025, em Lisboa, Portugal.
A ideia do projeto surgiu quando médicos e equipe técnica da unidade perceberam que alguns pacientes não compreendiam instruções básicas de saúde, não seguiam corretamente o tratamento ou não compareciam às consultas, por falta de habilidades de leitura e escrita. Assim, em 2023, foi criado o núcleo de alfabetização de adultos, com aulas que acontecem três dias na semana, sempre após o encerramento das atividades na unidade. O ensino é realizado por professores voluntários.
O Escrevendo Histórias teve como um dos idealizadores o agente de saúde Lucca Chagas. Ele, que também professor voluntário do projeto, conta que o propósito das aulas é oferecer autonomia e inclusão social aos pacientes:
“Quando o projeto começou, eu entrevistava as pessoas para saber quais eram as questões que precisávamos desenvolver. O objetivo era proporcionar independência e inclusão para essas pessoas que, por não saberem ler, tinham algumas dificuldades como, por exemplo, dependência de um acompanhante para ir à consulta médica”, conta Lucca, acrescentando que o analfabetismo também impacta a saúde do usuário, que “não consegue identificar o remédio que precisa tomar para seguir com o tratamento”.
Tendo que começar a trabalhar muito jovem, a dona de casa Ana Lúcia Viana, de 63 anos, está no projeto desde o início. Ela foi convidada por Lucca Chagas, após os seus colegas notarem que Lúcia faltava consultas em outras unidades, por não conseguir pegar ônibus sozinha. Dedicada, em duas semanas, a dona de casa aprendeu a escrever o seu nome. Hoje consegue ler a própria receita e tomar os medicamentos sozinha:
“Eu nunca tinha estudado. Quando cheguei aqui, não sabia de nada, não conseguia nem assinar meu nome. Fui aprendendo o som das letras e agora consigo juntar os sons e escrever. Hoje, consigo ler muitas coisas, assinar minha receita azul. Fui muito bem recebida e me sinto em casa no projeto,” comemora a paciente e aluna.
Reconhecimento internacional
Diante de tamanho êxito, a supervisora técnica da Área Programática 4.0 e ex-gerente da CF, Cassiana Dias inscreveu o projeto na Conferência Mundial de Medicina de Família e Comunidade (WONCA World) 2025, para contar ao mundo como surgiu a ideia do projeto, compartilhar a experiência de profissionais e usuários da Clínica da Família, além de valorizar as ações com o cuidado na Atenção Primária à Saúde e mostrar como esse trabalho é capaz de transformar o território.
O Escrevendo Histórias, segundo Cassiana Dias, consegue ultrapassar o espaço da unidade de saúde, unindo usuários, equipe e território. Por isso, a iniciativa foi selecionada pelo comitê científico da conferência, que ocorre bienalmente:
“Levar esse trabalho para Lisboa foi como conduzir a voz da Atenção Primária do Rio de Janeiro para um espaço global de discussão e mostrar que, além de indicadores, metas e protocolos, existem histórias, memórias, pessoas e vínculos que sustentam o cuidado e fazem o SUS acontecer todos os dias. Foi emocionante representar a APS do nosso território e ainda ouvir de outros países que o SUS é referência. Saí de lá com a certeza de que, quando a gente acredita no que faz e transforma a prática em conhecimento, nossa experiência ganha o mundo”, celebra Cassiana.
A gerente da unidade Jéssica Ribeiro também destacou a relevância do projeto e os seus impactos positivos, o que mostra como o “SUS é abrangente e como ele chega a lugares que a escola não chegaria”:
“O projeto mostra como o SUS é abrangente e como ele chega a lugares que a escola não chegaria. Também ensina à população que saúde é mais que um atendimento em consultório. A maioria da população pensa que saúde é apenas estar num consultório e ser atendido por um médico. Mas a saúde também está nas pequenas ações que fazemos nos lugares, como promover um espaço de aprendizado para as pessoas. Isso é promoção da saúde”, completa.