Há umas semanas, uma reportagem contou a história de uma tatuadora que teve sua transmissão ao vivo invadida por um homem que, do outro lado da tela e em outro estado, passou a se masturbar enquanto ela trabalhava. A violência aconteceu sem toque, sem encontro físico, sem que compartilhassem o mesmo espaço. Ainda assim, foi violência. Talvez justamente por isso essa história ficou na minha cabeça por dias, porque ele escancara uma verdade que insistimos em ignorar: a violência contra as mulheres muda de cenário, incorpora novas tecnologias, adapta suas formas de manifestação, mas continua obedecendo à mesma lógica de sempre. A lógica de homens que acreditam ter o direito de invadir, controlar, constranger e violar mulheres simplesmente porque elas existem no espaço público, seja ele uma rua, um estádio, um ônibus ou uma transmissão ao vivo no TikTok.
Escrevo essa coluna sobre um assunto incômodo e inevitável, e que sei que atravessa cada mulher que está me lendo. Escrevo como parlamentar, responsável por construir políticas públicas capazes de proteger mulheres, mas também como mulher preta que já passou dos 30 anos, plenamente consciente de que essa violência nunca foi uma abstração e que acontece com meninas, adolescentes, adultas e idosas. Ela organiza a forma como aprendemos a caminhar pela cidade, como seguramos as chaves ao voltar para casa, como escolhemos uma roupa, um caminho, um horário, um assento no transporte público e, agora, até mesmo a maneira como ocupamos os espaços digitais. Há muito tempo as mulheres deixaram de perguntar apenas “como me proteger?” E a se perguntar “onde ainda é possível existir sem medo?”. E essa talvez seja a face mais cruel da violência de gênero. Ela não produz apenas vítimas, mas reorganiza vidas inteiras em torno da antecipação constante da violência. Vivemos em um estado de alerta.
Essa inquietação que me levou de volta ao Dossiê Mulher, com dados do estado do Rio, exatamente sobre esse tipo de violência. Não para encontrar uma resposta pronta, mas para compreender até que ponto aquilo que sentimos cotidianamente também aparecia traduzido em números. E aparece. Os registros de importunação sexual cresceram 198% no Rio de Janeiro entre 2020 e 2025. Mais de nove em cada dez vítimas são mulheres. Os casos de violência psicológica e moral praticados pela internet cresceram mais de 1.300% na última década. O feminicídio continua fazendo vítimas semanalmente. Nenhum desses indicadores conta uma história diferente da outra, todos apontam para a mesma direção: a violência de gênero não é um conjunto de episódios isolados, mas sim uma estrutura que se reinventa sem jamais abrir mão do seu objetivo central, que é limitar a liberdade das mulheres.
É justamente por isso que não podemos aceitar explicações simplistas. Os meus caros leitores que me leem neste momento hão de convir que nenhum homem nasce odiando mulheres. Esse comportamento é aprendido, reforçado e naturalizado. A misoginia circula nas piadas, nos discursos, nos grupos de internet, nas comunidades que transformam o ressentimento contra mulheres em identidade política, na relativização cotidiana do assédio e da violência. A chamada cultura red pill não explica, sozinha, o crescimento desses crimes, mas faz parte de um ecossistema que normaliza a objetificação, o controle e a desumanização das mulheres. Há muita história no tão antigo patriarcado que baseia todo esse comportamento digital “novo”. Como nos diz a incrível Lélia Gonzalez, racismo e sexismo estruturam relações de poder na sociedade e produzem efeitos concretos sobre a vida das mulheres, especialmente das mulheres negras. Ignorar essa dimensão é fingir que a violência nasce do acaso, quando ela é produzida por uma cultura que ainda ensina homens a exercer poder e mulheres a conviver com o medo.
É por isso que políticas públicas importam. Nos meus dois mandatos, aprovamos leis para fortalecer o enfrentamento ao stalking, porque perseguição não é demonstração de afeto, é violência e muitas vezes antecede crimes mais graves. Defendemos e aprovamos a lei que obriga o funcionamento 24 horas das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, porque a violência não escolhe dia nem horário para acontecer. Também aprovamos medidas de combate ao assédio e à importunação sexual nos estádios, reafirmando que mulheres têm o direito de ocupar todos os espaços da cidade com liberdade e segurança.
Mas eu também sei que nenhuma lei será suficiente se continuarmos educando meninos para acreditar que insistência é conquista, que ciúme é cuidado, que controle é amor e que mulheres lhes devem atenção, afeto ou submissão.
E assim preciso citar outra gigante: Sueli Carneiro nos ensina que não é possível enfrentar a desigualdade de gênero ignorando as marcas do racismo e das estruturas que produzem exclusão. O combate à violência contra as mulheres exige enfrentar os mecanismos que naturalizam determinadas opressões e tornam alguns corpos mais vulneráveis do que outros. Essa reflexão é indispensável para o Rio de Janeiro, onde as mulheres negras seguem entre as maiores vítimas da violência, da ausência do Estado e das desigualdades sociais. Em mais de cinco anos à frente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, acolhi e acompanhei centenas de casos que confirmam essa realidade.
Falar sobre violência de gênero é falar também sobre raça, território, acesso à justiça e direito à vida. Não existe enfrentamento sério sem reconhecer essa realidade. E essa não é só uma realidade fluminense, mas brasileira.
Como mulher preta, parlamentar e defensora dos direitos humanos, eu me recuso a aceitar que viver com medo seja tratado como parte da experiência feminina. Não podemos continuar ensinando meninas a se proteger enquanto deixamos de ensinar meninos a respeitar. A responsabilidade de enfrentar a violência contra as mulheres não é apenas delas, nem apenas do Estado. Ela pertence às famílias, às escolas, às empresas, às plataformas digitais, aos homens e a toda a sociedade. Não devemos, através de dossiês, apenas contabilizar vítimas. Isso é o mínimo. Precisamos entender que essa documentação serve para provocar uma mudança profunda na forma como educamos, convivemos e construímos políticas públicas.
Porque proteger as mulheres não é uma pauta de nicho, “identitária” como tantos políticos de direita, quase sempre homens brancos, acreditam que seja. Proteger a população feminina é condição primordial para qualquer projeto verdadeiramente sério de democracia, justiça e humanidade.
Só a luta muda a vida.
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