Com leis de incentivo aprovadas pela Alerj, produção local tem ganhado reconhecimento e impulso para competir no mercado nacional.
Madu Costa
Uma harmonização de queijos e vinhos pode ser a pedida favorita de muitos fluminenses no inverno e, para atrair esse público, empresas de Teresópolis apostam na união de forças. O leite sai de uma fazenda da cidade, é usado como matéria-prima na queijaria do Hotel Le Canton e, depois, segue para harmonizar com os vinhos produzidos na Vinícola Maturano, também no município. A poucos quilômetros de distância, agricultura, gastronomia, turismo e empreendedorismo formam uma cadeia que aposta no potencial da Serra Fluminense para conquistar espaço no cenário nacional do enoturismo.
Esse movimento acompanha iniciativas voltadas ao fortalecimento da produção regional, como a Lei 11.150/26, aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que declarou a Região Serrana como Capital Estadual do Vinho. Na prática, o reconhecimento encontra respaldo em projetos que unem tradição familiar, inovação e cooperação entre diferentes setores da economia local.
Na Vinícola Maturano, esse projeto começou em 2020, quando a família adquiriu a primeira área destinada ao cultivo de uvas. Hoje, o empreendimento reúne pai, mãe e filha na administração e conta com uma área total de 202 hectares, com 50 hectares de vinhedos plantados até 2030.
A empresária Manuela Maturano, de 21 anos, explica que a escolha por Teresópolis foi estratégica. Embora a família viva na cidade há um século, foi o potencial da região para a viticultura que motivou o investimento. Segundo ela, características naturais da região afetam diretamente o resultado da produção.
“O próprio desenvolvimento de aromas e a preservação da acidez, por exemplo, são componentes influenciados pela altitude – e Teresópolis é a cidade mais alta do Rio”, destaca.
Nos vinhedos são cultivadas variedades como syrah, cabernet franc, sauvignon blanc, chardonnay, malbec e merlot. Neste ano, a vinícola também dá continuidade aos testes de uma variedade italiana chamada Maturano, que leva o sobrenome da família. Entre os consumidores, o rótulo de maior sucesso é o sauvignon blanc, descrito por Manuela como um vinho elegante, de aromas frescos que fogem das tradicionais notas herbáceas.
Além das condições naturais, a empresária ressalta a importância de políticas voltadas ao desenvolvimento do setor: “O Rio é o estado mais competitivo em relação aos impostos para a produção de vinhos e a Alerj tem criado iniciativas que voltam o seu olhar para o campo. Com essas ações, a gente consegue provar que o Rio não só tem uma capacidade natural das terras para a produção, mas que o há um cuidado para que essa atividade seja desenvolvida com o suporte necessário”.
O campo é protagonista
A qualidade do vinho começa muito antes de chegar aos barris. Para o químico e gerente-geral operacional da vinícola, Anderson Ribeiro, o trabalho desenvolvido nos vinhedos é determinante para o resultado final. “Nosso vinho é mais purista, com pouca intervenção humana: 90% da produção é feita no campo e apenas 10% na nossa cantina”, explica.
Anderson destaca que os chamados vinhos de inverno, produzidos na Serra Fluminense, apresentam características próprias. “São vinhos mais encorpados, feitos de uma fruta mais madura, dependendo do tipo de formação enológica que se escolhe atribuir”, conta.
O impacto da atividade também se reflete na geração de empregos. Atualmente, a vinícola conta com 135 colaboradores, sendo quase a totalidade formada por mão de obra local. Para o empresário Marcelo Maturano, a força da região é traduzida em união e um diferencial logístico que torna o mercado fluminense lucrativo e competitivo a nível nacional.
“Temos um estado pequeno em termos geográficos, mas com uma população expressiva, que representa o segundo mercado de maior consumo de vinhos no Brasil. A vinícola está a 120 quilômetros do Aeroporto Internacional do Galeão e é de fácil acesso para qualquer pessoa do estado. Esse é um grande diferencial nosso em relação a todos os estados do Brasil e por isso o Rio está se tornando um grande ponto de viticultura”, afirma Marcelo.
Queijo artesanal fortalece o turismo gastronômico
A poucos quilômetros dos vinhedos, outra iniciativa ajuda a fortalecer esse mesmo movimento. Na queijaria do Hotel Le Canton, a produção artesanal também foi pensada para integrar turismo e experiência gastronômica. O mestre queijeiro Jhonny Silveira explica que os hóspedes acompanham todas as etapas da fabricação.
“A proposta do hotel é poder oferecer uma experiência imersiva. Ficamos em uma fazenda, onde os hóspedes fazem passeios, visitam as instalações em que ficam os animais, e conhecem também a queijaria. Eles podem ver como se faz um queijo do zero”, conta. Segundo ele, toda a estrutura foi planejada para aproximar o visitante da produção: a queijaria é disposta em formato de aquário, com visão total de fora para dentro.
Toda semana, o leite utilizado na fabricação chega de uma fazenda de Teresópolis. Após análises e pasteurização, é iniciada a produção dos queijos artesanais. Para fabricar uma peça de aproximadamente cinco quilos com maturação mais longa, são necessários cerca de 50 litros de leite.
Para Jhonny, mais do que produzir, a proposta é fortalecer uma identidade gastronômica para a cidade. “Estamos implementando aqui na Serra uma rota queijeira, com a união de seis queijarias voltadas ao turismo e para experiências de degustação. Queremos unir forças para atrair o turismo gastronômico para a cidade e mostrar a qualidade da produção local”, afirma.
Essa união entre produtores já acontece na prática. Os queijos produzidos no Le Canton são utilizados nas harmonizações e degustações promovidas pela Vinícola Maturano, enquanto experiências semelhantes também são oferecidas aos hóspedes do hotel.
“Quando pensamos em produção de queijo, sobretudo no frio, pensamos em harmonização. A temperatura aproxima as pessoas, que buscam experiências especiais”, ressalta Jhonny. O processo artesanal, segundo ele, também se reflete no produto final. “Fugimos do padrão industrializado, oferecemos uma visão artesanal da comida e um queijo mais natural, com uma tabela nutricional limpa e saudável”, conclui.
