quinta-feira, 16 de abril de 2026 - 4:53

Esquizofrenia Cultural ou Maturidade Cristã?

Dom Orani abençoa os estandartes das escolas, levando a imagem de São Sebastião em visita à Cidade do Samba e / Foto: ArqRio

*Pe. Alan Galvão de Paula

Assessor de Imprensa da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

Em relação ao Carnaval, não somos talvez um pouco esquizofrênicos? A pergunta formulada por Papa Bento XVI não é provocação gratuita. Ela toca uma tensão real da alma carioca e, em grande medida, da própria cultura brasileira. De um lado, afirmamos que o Carnaval tem direito de cidadania mesmo numa terra profundamente marcada pelo cristianismo. De outro, evitamos refletir espiritualmente sobre ele, como se fé e festa ocupassem territórios estanques.

Se o cristianismo é verdadeiramente humano, ele não pode ignorar o que é humano. E a festa pertence à estrutura da experiência humana. O riso coletivo, o corpo que dança, a arte que dramatiza a história de um povo, a música que transforma memória em identidade são expressões legítimas da condição humana. Uma fé que fugisse dessas dimensões deixaria de ser encarnação para se tornar abstração.

O Carnaval, é verdade, carrega ambiguidades. Sua história mistura excessos, inversões simbólicas e impulsos que nem sempre elevam o homem. Ao longo dos séculos, a Igreja precisou confrontar aquilo que desfigurava a dignidade humana. Falou-se em exorcismo como libertação do que transforma alegria em alienação. Mas o próprio Bento XVI recordava que o exorcismo cristão não apenas afasta; ele transforma. Ao situar o Carnaval imediatamente antes da Quarta-feira de Cinzas, a Igreja não o eliminou, deu-lhe horizonte. Tornou-o tempo de alegria antes do tempo da penitência. Há um tempo para chorar e um tempo para rir. Também para o cristão há tempo para rir.

A Igreja nunca foi inimiga da cultura. Ao contrário, ajudou a moldá-la. Onde houve fé encarnada, houve arte, música, arquitetura, símbolos. A relação entre Igreja e cultura não é de submissão nem de hostilidade, mas de diálogo crítico. A Igreja reconhece o que é verdadeiro, bom e belo na cultura e, ao mesmo tempo, a purifica quando necessário. Cultura é espaço de sentido. E onde há busca de sentido, há campo legítimo para a presença da fé.

O problema nunca foi a alegria. O problema é quando ela é sequestrada. Quando o mercado substitui o significado. Quando o espetáculo eclipsa a pessoa. Quando o corpo vira produto e a cultura, mercadoria. A crítica cristã não é contra o Carnaval enquanto manifestação popular; é contra tudo o que reduz o humano.

É nesse contexto que o gesto do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro ganha densidade histórica. Ao entrar na Cidade do Samba levando a imagem peregrina de São Sebastião e aspergindo água benta sobre trabalhadores e estandartes, Dom Orani João Tempesta realizou um ato de forte significado simbólico. Não foi folclore. Foi presença.

Ele não foi abençoar um espetáculo, foi abençoar pessoas. Costureiras, escultores, ritmistas, famílias inteiras que encontram ali sustento, identidade e pertencimento. Antes das luzes da avenida há meses de trabalho silencioso. Antes da transmissão televisiva há comunidades inteiras que vivem daquilo que produzem com criatividade e esforço. A bênção alcançou essa dignidade concreta.

Há também uma memória mais antiga que se impõe. Muito antes dos desfiles modernos, o Rio já conhecia procissões, irmandades, estandartes religiosos que atravessavam as ruas. A cidade nasceu misturando fé e celebração pública. Ao abençoar estandartes carnavalescos, o Cardeal tocava uma raiz profunda da identidade carioca. Recordava que o samba não surgiu num vazio espiritual, mas numa terra moldada por devoções, padroeiros e símbolos cristãos.

Num tempo de polarizações fáceis, a imagem do barrete no coração da Cidade do Samba rompe caricaturas. A Igreja não se enclausura, não se intimida e não recua da cultura. Mas também não dilui sua identidade. Dialoga sem se confundir. Está presente sem se descaracterizar. Reconhece o valor da tradição popular e mantém a clareza sobre seus princípios.

A Quarta-feira de Cinzas continua a existir. A penitência continua a ser proposta. A consciência moral não é suspensa durante o Carnaval. O que se afirma é outra coisa: que a fé não teme estar onde o povo está. Que a alegria não é inimiga da espiritualidade. Que a maturidade cristã supera a falsa oposição entre altar e avenida.

No Rio de Janeiro, onde o Cristo Redentor abraça a cidade que se transforma no maior palco festivo do mundo, a tensão entre fé e festa não precisa gerar esquizofrenia cultural. Pode gerar maturidade. Pode produzir uma presença serena que ilumina sem agredir, que dialoga sem ceder, que participa sem se perder.

Entre máscara e rosto, permanece o desafio. Que a festa não seja fuga. Que o riso não seja vazio. Que a alegria seja livre. E que a fé continue suficientemente humana para caminhar onde o povo caminha, sustentando, no coração do Carnaval, a verdade que dá sentido à própria alegria.

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