O julgamento pela morte de Henry Borel devolveu ao debate público uma tragédia que mobilizou o país. Como ocorre em casos dessa natureza, a atenção se concentra nos detalhes, nas versões conflitantes, na responsabilização dos envolvidos e na expectativa pela decisão da Justiça.
O que transforma casos como esse em acontecimentos tão perturbadores não é apenas a violência em si. É o fato de ela atingir justamente a fase da vida que deveria estar mais protegida. A infância ocupa, em qualquer sociedade, um lugar de cuidado. Quando uma criança é vítima de violência, algo parece romper não apenas na vida daquela família, mas também naquilo que entendemos como pacto civilizatório.
Existe, porém, um risco recorrente nesses momentos. O de tratar episódios de grande repercussão como exceções absolutas, desvios tão extremos que pouco teriam a nos dizer sobre a realidade cotidiana. Os números mostram o contrário.
Dados do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelam que cerca de dois terços das violências sofridas por crianças e adolescentes de até 14 anos acontecem dentro da própria residência. Na faixa etária de zero a quatro anos, a violência não letal tem origem doméstica em praticamente oito de cada dez casos. O mesmo estudo registra um crescimento expressivo das notificações de violência sexual na primeira infância ao longo da última década.
Há algo profundamente cruel nesses dados. Durante muito tempo, acostumamo-nos a imaginar o perigo como algo externo: a rua, o desconhecido, a ameaça distante. Entretanto, a experiência acumulada pelos serviços de saúde, pela rede de proteção e pelos pesquisadores da infância aponta repetidamente para outra direção. Em muitos casos, a violência surge justamente nos ambientes onde a criança deveria encontrar amparo.
Essa constatação exige uma reflexão que vai além da esfera criminal. Ela nos obriga a perguntar que lugar a infância ocupa em nossa cultura.
A identificação precoce continua sendo um dos maiores desafios. Crianças nem sempre conseguem nomear aquilo que sofrem. Muitas vezes expressam sofrimento por meio de mudanças de comportamento, dificuldades escolares, retraimento, ansiedade ou alterações físicas que passam despercebidas. Isolamento repentino, tristeza persistente, alterações importantes no padrão de sono e, em casos mais graves, comportamentos de automutilação podem ser sinais de alerta que merecem atenção. Quanto mais cedo esses sinais são reconhecidos, maiores são as possibilidades de proteção.
Os indícios também podem ser físicos. Hematomas recorrentes, queimaduras, marcas compatíveis com agressões e lesões cuja explicação não parece compatível com a gravidade observada exigem cuidado e investigação. A repetição de faltas escolares, a presença de violência no ambiente familiar e situações de abuso de álcool e outras drogas por responsáveis também figuram entre os fatores que devem mobilizar a atenção de educadores, profissionais de saúde e da rede de proteção.
Talvez a principal lição que emerge de casos como o de Henry seja justamente essa: proteger a infância não é uma tarefa que começa diante de uma tragédia consumada. Ela precisa ser iniciada muito antes, na capacidade coletiva de perceber vulnerabilidades, de levar sinais a sério e de construir ambientes em que uma criança possa crescer sem medo. Quando houver suspeita de violência, a omissão nunca deve ser uma opção. Conselho Tutelar, unidades de saúde do SUS e autoridades policiais integram a rede responsável por acolher denúncias e acionar os mecanismos de proteção previstos em lei.
As sociedades costumam ser avaliadas por seus indicadores econômicos, sua infraestrutura ou sua capacidade tecnológica. Há, contudo, uma medida mais simples e talvez mais reveladora: a forma como tratam aqueles que dependem inteiramente dos outros para viver. Poucos compromissos são mais fundamentais do que esse e nenhuma nação pode ser considerada verdadeiramente desenvolvida quando falha em proteger suas crianças dentro dos espaços que deveriam ser sinônimo de cuidado.
*Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
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