Nunca se falou tanto sobre saúde mental no Brasil. A depressão deixou de ser confundida com falta de vontade. A ansiedade passou a ocupar espaço nas conversas familiares, nas empresas e nas escolas. A dependência química vem sendo reconhecida, cada vez mais, como uma doença que exige tratamento especializado. O estigma diminuiu, campanhas de conscientização se multiplicaram e o tema finalmente entrou na agenda pública.
Esse avanço é inegável. Mas ele convive com um paradoxo preocupante: justamente quando a sociedade compreende melhor os transtornos mentais, muitas famílias encontram mais obstáculos para transformar o diagnóstico em tratamento. O custo das internações particulares é elevado, a inadimplência afastou parte da população dos planos de saúde, a rede pública segue pressionada pela demanda crescente e, mesmo entre beneficiários de convênios, nem sempre a autorização ou a indicação de uma unidade adequada acontece no tempo necessário.
O problema se torna ainda mais evidente porque o sofrimento psíquico também mudou de escala.
Dados recentes da Organização Mundial da Saúde revelam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais em todo o mundo. No Brasil, esse cenário é agravado por fatores que se acumulam. As consequências econômicas da pandemia ainda afetam milhões de famílias, a hiper conexão reduziu os espaços de descanso mental e as redes sociais intensificaram a comparação permanente, sobretudo entre os jovens. Mais recentemente, a expansão acelerada das apostas esportivas on-line trouxe um novo elemento de preocupação. O endividamento provocado pelas bets já aparece associado ao aumento da ansiedade, da depressão, dos conflitos familiares e de comportamentos compulsivos, compondo um quadro que desafia profissionais de saúde e políticas públicas.
Nunca tantos fatores atuaram simultaneamente sobre a saúde emocional da população. Ao mesmo tempo, o caminho entre reconhecer a necessidade de tratamento e efetivamente recebê-lo tornou-se mais difícil. Essa realidade se revela de maneira particularmente dramática nos casos de dependência química. Existe uma janela de oportunidade em que o paciente aceita ajuda. Muitas vezes, depois de meses ou anos de sofrimento, a família consegue convencê-lo de iniciar um tratamento. É um momento raro, delicado e decisivo. Quando não há acesso rápido ao cuidado especializado, essa oportunidade pode desaparecer. A recaída costuma significar mais sofrimento, maior desgaste familiar e um tratamento ainda mais complexo no futuro.
O mesmo raciocínio vale para diversos transtornos psiquiátricos graves. Quanto maior a demora para oferecer o cuidado adequado, maiores tendem a ser os prejuízos para o paciente, para sua família e para a própria sociedade. Durante décadas, o maior desafio da saúde mental foi combater o preconceito. Hoje, um novo obstáculo ganha protagonismo: garantir acesso ao tratamento.
Essa discussão não diz respeito apenas às clínicas, aos hospitais ou aos planos de saúde. Trata-se de uma questão de saúde pública. Uma sociedade que não consegue cuidar adequadamente das pessoas em sofrimento psíquico paga um preço elevado em afastamentos do trabalho, perda de produtividade, rompimento de vínculos familiares, violência, abandono escolar, uso abusivo de álcool e outras drogas e, nos casos mais extremos, suicídios.
O Brasil já demonstrou ser capaz de amadurecer o debate sobre saúde mental. Esse foi um avanço importante e deve ser reconhecido. Mas conscientização, por si só, não trata ninguém. É preciso ampliar o acesso ao cuidado, discutir novos modelos de financiamento, fortalecer a rede pública, aperfeiçoar a atuação dos planos de saúde e criar alternativas para que nenhuma família fique sem atendimento quando mais precisa. Porque, em psiquiatria, o tempo também faz parte do tratamento.
*Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
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