Enquanto a Prefeitura do Rio divulga sucessivas operações de demolição de construções ilegais, anuncia a implantação de barreiras para conter a expansão irregular das favelas e informa já ter realizado mais de 5.500 demolições desde 2021, um vídeo gravado na Rocinha mostra uma realidade que parece seguir em direção oposta. Publicado pelo influenciador digital Ruan Juliet, um dos mais conhecidos criadores de conteúdo sobre o cotidiano da favela, o registro apresenta uma laje anunciada por quase R$ 1 milhão como um “investimento” destinado à futura construção de quitinetes para aluguel, reacendendo o debate sobre a eficácia da fiscalização municipal diante da contínua verticalização das áreas ocupadas irregularmente.
Ao longo de pouco menos de dois minutos, Ruan percorre toda a estrutura, mostra os pavimentos já erguidos e explica a lógica econômica do negócio. Segundo ele, a construção possui cerca de 420 metros quadrados distribuídos em três lajes e poderá ser transformada em diversas quitinetes, cada uma com potencial de gerar aproximadamente R$ 800 mensais em aluguel. O vídeo não apresenta a estrutura como residência para uma família, mas como um ativo capaz de produzir renda permanente por meio da locação de pequenas unidades habitacionais.
O aspecto que mais chama atenção é que o valor anunciado não corresponde a um apartamento pronto ou a uma casa concluída. O que está sendo negociado é apenas a laje, ainda em fase de construção. Quem adquirir o imóvel precisará investir na conclusão da obra, executar instalações, acabamentos e divisões internas antes de colocá-lo em funcionamento. Ainda assim, a estrutura é apresentada como um “investimento”, justamente porque seu potencial econômico estaria na multiplicação de pequenas unidades destinadas ao aluguel. Assista ao Vídeo aqui.
A dinâmica revelada pelo vídeo ajuda a compreender um fenômeno que o DIÁRIO DO RIO vem denunciando há anos. A expansão ilegal das favelas deixou, em muitos casos, de se resumir à autoconstrução motivada exclusivamente pela necessidade de moradia. O que as imagens mostram é a existência de uma cadeia econômica organizada, na qual uma construção ilegal é erguida para ser revendida. O adquirente, por sua vez, conclui o empreendimento, divide o espaço em diversas quitinetes e passa a obter renda com sua locação. Na prática, forma-se um mercado imobiliário clandestino, com seus próprios “incorporadores” e “investidores”, reproduzindo, à margem da legislação urbanística, etapas semelhantes às do mercado formal de incorporação imobiliária.
No fim dessa cadeia estão justamente as famílias de menor renda. Em vez de adquirirem uma moradia própria, tornam-se inquilinas de pequenas unidades erguidas irregularmente, pagando valores que, segundo o próprio vídeo, podem chegar a cerca de R$ 800 por mês. A gravação evidencia, assim, uma dinâmica em que a expansão ilegal das favelas deixa de representar apenas ocupação irregular do solo para se transformar em um modelo de negócios baseado na construção, revenda e posterior exploração econômica desses imóveis.
Outro aspecto revelador é a absoluta naturalidade com que tudo é tratado. Ruan Juliet não faz qualquer denúncia nem questiona a legalidade da construção. Tampouco esse é o objetivo de seu trabalho. Conhecido por retratar o cotidiano da Rocinha para centenas de milhares de seguidores, ele apresenta a negociação como quem mostra mais um elemento da vida diária da favela. Enquanto percorre a obra, explica seu potencial econômico, comenta a futura divisão em quitinetes e estima a renda que poderá ser obtida com os aluguéis sem demonstrar qualquer surpresa. Para quem acompanha seu conteúdo, a impressão transmitida é a de que esse tipo de negociação integra o cotidiano local, o que reforça a percepção de que a verticalização e o mercado clandestino de imóveis continuam avançando com normalidade.
A cena contrasta com o discurso oficial da Prefeitura. Nos últimos anos, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) intensificou operações de combate às construções ilegais e afirma já ter demolido mais de 5.500 edificações irregulares desde 2021. Entre as ações mais recentes estão a demolição de um prédio irregular de três andares na própria Rocinha, avaliado em cerca de R$ 2 milhões; a remoção de novas construções e de uma grande laje no Vidigal; e a demolição de 11 edificações ilegais na Favela Praia da Rosa, na Ilha do Governador. Paralelamente, o Município sustenta que as chamadas barreiras verdes têm como objetivo impedir o avanço das ocupações irregulares sobre áreas ambientalmente protegidas.
O DIÁRIO DO RIO, entretanto, vem documentando repetidamente que novas construções continuam surgindo em diferentes regiões da cidade. O jornal já mostrou a verticalização acelerada de favelas da Zona Sul, o avanço de edificações sobre áreas de Mata Atlântica, loteamentos clandestinos, novas ocupações irregulares entre Santa Teresa e Cosme Velho, o crescimento da Babilônia, das áreas próximas ao Túnel Rebouças e de diversos outros pontos do Rio. O vídeo gravado na Rocinha reforça essa sequência de reportagens ao revelar, de forma pública e espontânea, uma negociação que ilustra o funcionamento desse mercado clandestino.
O vídeo em si não tem caráter denunciatório. Seu autor apenas registra uma realidade que conhece e acompanha diariamente. A denúncia nasce da comparação entre essas imagens e as políticas públicas anunciadas pelo poder público. Se uma laje pode ser anunciada publicamente por quase R$ 1 milhão como um “investimento” destinado à construção de quitinetes para aluguel, a pergunta que permanece é inevitável: a fiscalização municipal está conseguindo impedir a expansão ilegal e a verticalização das favelas ou esse mercado imobiliário clandestino continua prosperando enquanto novas construções seguem sendo erguidas e comercializadas à margem da legislação urbanística?