O novo presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos, a Cedae, Rafael Rolim, iniciou uma série de cortes em contratos de obras e serviços para tentar evitar que a estatal chegue a 2027 no vermelho. Procurador do Estado, ele assumiu o comando da empresa em 16 de abril e encontrou, segundo relatou, uma combinação de despesas elevadas e queda de receitas. As informações são d´O Globo.
A primeira medida foi reduzir em 25% o orçamento da companhia em contratos de obras e serviços. O corte equivale a cerca de R$ 500 milhões e pode chegar a 35% nos próximos 30 dias. Também houve redução de aproximadamente R$ 5 milhões em gastos anuais com funcionários extraquadros, comissionados e terceirizados.
“O desencontro entre orçamento e realidade financeira faz com que tenhamos que dar um choque de gestão na largada. Sob pena de, no ano que vem, termos problemas, inclusive no índice de liquidez da companhia, que na prática é a gente gastar mais do que arrecada”, afirmou Rafael Rolim, em entrevista ao O Globo.
Auditorias miram contratos e aplicações financeiras
Além dos cortes, a nova gestão abriu auditorias sobre contratos firmados nos 12 meses anteriores à posse de Rafael Rolim. Segundo o presidente da Cedae, a apuração já identificou cerca de R$ 1 bilhão em contratos feitos por dispensa ou inexigibilidade de licitação, além de pregões e atas de registro de preços realizados fora da companhia.
Outra frente analisa as aplicações financeiras da estatal, que somam R$ 2,2 bilhões. O montante inclui mais de R$ 200 milhões investidos no Banco Master, instituição que teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, após indícios de gestão fraudulenta.
“Como medida mitigadora desses riscos, já encaminhamos ao conselho uma mudança de política de investimentos, também para ser ainda mais conservador”, disse Rafael Rolim.
A Cedae flexibilizou suas regras de aplicações financeiras pouco antes de comprar, no fim de 2023, papéis do Banco Master. À época, parecer do então diretor administrativo-financeiro Antonio Carlos dos Santos afirmava que a política da empresa previa aplicações com baixa exposição a riscos, com objetivo de evitar perda de valor dos recursos em caixa.
Acordo com Águas do Rio também é investigado
Uma terceira auditoria mira o acordo firmado pelo governo anterior com a Águas do Rio, que reduziu em 24,13% o preço da água captada e tratada pela Cedae. A concessionária privada é responsável pela distribuição dessa água e pela operação de esgoto em parte do estado.
O termo de conciliação foi assinado depois de a Águas do Rio alegar discrepâncias nos índices de cobertura de água e esgoto informados no edital de concessão do saneamento, de 2021. A modelagem foi feita por empresas contratadas pelo BNDES. Uma liminar mantém suspensa a cobrança da água pelo valor cheio.
“Rechaço totalmente qualquer responsabilidade da Cedae na prestação de informações que deram origem ao projeto de concessão”, afirmou Rafael Rolim.
Além da Águas do Rio, a operação do saneamento no estado também envolve as concessionárias Iguá e Rio+Saneamento. Em 15 dos 92 municípios fluminenses, os serviços ainda são prestados pela estatal.
Cortes atingem áreas operacional, de TI e financeira
Os cortes feitos pela nova gestão não são lineares. Segundo Rafael Rolim, eles atingem áreas como operação, Tecnologia da Informação e setor financeiro. Entre os exemplos estão obras em unidades operacionais, serviços de monitoramento do Guandu e produção de softwares.
As obras do Novo Guandu, complexo de produção e distribuição de água potável em construção em Nova Iguaçu, não foram atingidas, por serem licitadas.
“Na hipótese de a nossa auditoria constatar alguma irregularidade nos contratos analisados, entramos em outro patamar. Já não será só o controle, teremos que regularizar a situação jurídica”, disse Rafael Rolim.
Por decreto do governador em exercício Ricardo Couto, 230 contratos acima de R$ 1 milhão foram encaminhados para análise da Controladoria Geral do Estado. Outros 150 contratos, abaixo desse valor, passam por auditoria interna na própria Cedae.
A estatal tem 2.914 servidores concursados. Com os cortes, o número de comissionados caiu de 134 para 87. Entre os quase 400 terceirizados, cerca de 100 foram dispensados.
Balanço de 2025 será entregue com atraso
Outro ponto em revisão é o balanço financeiro de 2025 da Cedae, que deveria ter sido entregue à Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, em março. A atual gestão afirma ter encontrado inconsistências nos números, que apontavam lucro de R$ 1,1 bilhão.
Com a análise em andamento, o documento será enviado à CVM com atraso, até o fim deste mês.
“O balanço do ano passado que recebemos era uma ficção. Então, cabe a nós rever esses números para conseguir fechar esse balanço”, afirmou Rafael Rolim.
Presidente pede servidores atentos aos gastos
Rafael Rolim também se reuniu com funcionários da Cedae no auditório da sede, na Cidade Nova, com transmissão on-line para outras unidades. Na apresentação, fez um diagnóstico da empresa e pediu que os servidores acompanhem de perto receitas e despesas.
“Preciso que cada um seja fiscal da receita e da despesa. A realidade econômico-financeira não é boa, mas não vai existir obstáculo político para fazer a curva mudar”, afirmou Rafael Rolim.
O presidente disse ainda que as diretorias foram despolitizadas, com destaque para a área financeira, agora comandada por Rodrigo Morales, estatístico com experiência nos setores de energia, óleo e gás.
“Não quero perseguir ninguém. Quem fez, fez. Daqui para frente, não faz mais. Se envolvam na companhia. Vamos virar esse jogo”, disse Rafael Rolim.
Durante a apresentação, a nova gestão mostrou dados segundo os quais os gastos com pessoal cresceram 17% entre 2023 e 2026. No mesmo período, os contratos com terceiros subiram 116%.
Em um cenário considerado realista pela companhia, se nenhuma medida fosse adotada, a Cedae fecharia 2026 ainda no azul, com resultado positivo de R$ 646 milhões. Em 2027, no entanto, a projeção seria de déficit de R$ 387 milhões.