sexta-feira, 12 de junho de 2026 - 6:57

O “Alzirão”: Como a Tijuca criou o maior festival de rua da Copa

Alzirão é realizado na esquina das ruas Conde de Bonfim e Alzira Brandão, na Tijuca

O Alzirão começou na Rua Alzira Brandão, na Tijuca, nos anos 1970. O que nasceu como uma reunião espontânea de vizinhos com bandeirinhas e uma TV na calçada, transformou-se no maior festival de rua da Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Para este ano, o prefeito Eduardo Cavaliere confirmou na quarta-feira (10/06), por meio de uma publicação nas redes sociais, que a festa foi autorizada e acontecerá normalmente.

O Começo: Uma TV na Calçada e a “Copa do Ditador”

Em 1978, a Copa do Mundo acontecia na Argentina, sob a sombra da ditadura de Videla. O clima no Brasil era tenso, o futebol da Seleção de Cláudio Coutinho não empolgava, e a inflação castigava o bolso do trabalhador.

Foi nesse cenário cinzento que moradores da região tiveram uma ideia simples para tentar animar os vizinhos: pegou um aparelho de televisão (daquelas antigas, pesadas, de tubo), colocou em cima de uma mesa na calçada da Rua Alzira Brandão e puxou uma extensão de luz de dentro de casa.

A premissa era só juntar os amigos para tomar uma cerveja e assistir ao Brasil. Naquele ano, a Seleção acabou eliminada de forma polêmica (a Argentina goleou o Peru por 6 a 0 em um jogo suspeito e tirou o Brasil da final), mas a semente na Tijuca já tinha brotado. Os moradores perceberam que assistir ao jogo na rua, compartilhando a angústia e a alegria com o vizinho, era infinitamente melhor do que ficar isolado na sala de casa.

O Crescimento: Da Tinta no Asfalto ao Palco de LED

Nas Copas de 1982 e 1986, a brincadeira virou tradição oficial do bairro. O ritual começava semanas antes do torneio: os moradores se cotizavam para comprar latas de tinta e passavam os fins de semana pintando o asfalto com bandeiras do Brasil, desenhos do mascote da Copa e mensagens de apoio. Barbantes com milhares de bandeirinhas verdes e amarelas eram esticados de um prédio ao outro, cobrindo o céu da rua.

A cada edição, o público dobrava. O que era uma reunião de vizinhos passou a atrair pessoas de outros bairros da Zona Norte e, logo, da cidade inteira.

A televisão na calçada virou um telão; o telão virou um projetor; e o projetor deu lugar a palcos gigantescos com telas de LED de alta definição. O Alzirão deixou de ser uma “festa de rua” para se transformar em um festival oficializado pela Prefeitura do Rio, atraindo patrocinadores de peso e entrando para o calendário turístico do estado.

A Apoteose: O Maracanã das Ruas

O Alzirão atingiu o seu ápice nos anos 2000. Em dias de jogo do Brasil, a ferveção começa cedo. A organização fecha as ruas do entorno e a Tijuca vira um verdadeiro formigueiro humano. Em edições de Copa do Mundo, o evento chegou a registrar marcas impressionantes de mais de 30 mil a 50 mil pessoas por jogo.

O grande segredo do Alzirão é que ele funciona como uma espécie de “escola de samba do futebol”. Quando o juiz apita o fim do jogo da Seleção, seja com vitória ou derrota, a festa não acaba. Pelo contrário: bandas de pagode, blocos de Carnaval, DJs de funk e baterias de escolas de samba (como a vizinha Salgueiro) sobem ao palco e transformam a rua em uma quadra de ensaio a céu aberto até a madrugada.

O Alzirão provou para o mundo que a Copa, para o carioca, não se joga apenas nos estádios bilionários da FIFA. Ela se joga no asfalto, no calor do copo de plástico, no grito uníssono que ecoa entre os prédios da Tijuca.

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