
A guerra interna no PT de Maricá ganhou um novo e explosivo capítulo. O prefeito Washington Quaquá (PT) decidiu extinguir, na prática, o gabinete de seu vice-prefeito, João Maurício de Freitas, o Joãozinho (PT), e exonerou cerca de 30 servidores comissionados ligados tanto a ele quanto ao ex-prefeito Fabiano Horta (PT). As demissões foram publicadas majoritariamente na edição de terça-feira (3) do Jornal Oficial de Maricá (JOM).
Do total de exonerações, mais de 20 atingem diretamente cargos vinculados ao gabinete do vice, que deixa de operar como espaço político na estrutura da prefeitura. Outros cerca de dez nomes eram ligados ao grupo de Fabiano Horta, antecessor de Quaquá e, até pouco tempo atrás, aliado histórico do atual prefeito. Joãozinho presidiu o diretório estadual do PT até agosto de 2025.
Disputa paroquial por espaço eleitoral
O movimento é interpretado nos bastidores como parte de uma disputa local para definir a nominata do partido e os nomes que disputarão as eleições deste ano. Quaquá trabalha abertamente para viabilizar a candidatura do filho, Diego Zeidan, à Câmara dos Deputados. Presidente estadual do PT e secretário de Habitação do prefeito Eduardo Paes (PSD), Diego divide espaço com outros dois pré-candidatos petistas do município.
Além dele, Quaquá também aposta no presidente da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), o ex-ministro Celso Pansera. Do outro lado, Fabiano Horta confirmou sua pré-candidatura a deputado federal com o apoio de Joãozinho. Com pouco mais de 160 mil eleitores, Maricá dificilmente teria densidade eleitoral para eleger três deputados federais, o que empurrou antigos aliados para campos opostos.
Frases que inflamam o ambiente
Em mensagens publicadas nas redes sociais, Quaquá deixou claro que não pretende recuar:
“Fiz isso por oito anos! Aliás, nove. Não brigo à toa. Aturei quando não tinha forças e fiquei quieto enquanto me sacaneavam. Agora o poder mudou e eles acharam que podiam continuar me sacaneando… O pau vai cantar!”
Em outra postagem, escreveu:
“Ser inteligente é uma maldição. Você entende o jogo, observa as mentiras, reconhece os padrões. Mas ainda precisa se fazer de idiota para sobreviver.”
Ataques ao antecessor e escalada do conflito
A ofensiva política de Quaquá começou ainda antes das exonerações. Após a confirmação da pré-candidatura de Fabiano, o prefeito passou a criticar abertamente a gestão do ex-aliado, tanto em discursos públicos quanto nas redes sociais. Em postagens recentes, algumas diretas e outras indiretas, Quaquá tem elevado o tom contra o antecessor.
Durante o lançamento de um shopping no município, na última sexta-feira (28), evento do qual Fabiano não participou, Quaquá acusou o ex-prefeito de tê-lo isolado politicamente durante os dois mandatos à frente da prefeitura, entre 2017 e 2024, e de ter esvaziado o papel de Diego Zeidan quando este era vice-prefeito.
“O Fabiano me sucedeu na prefeitura e eu, de certa maneira, fui afastado de todas as decisões em Maricá. Aí, meu filho Diego foi vice-prefeito. Eu, através do Diego, tentei fazer umas coisas, como, por exemplo, o programa “O sol nasce para todos”. Pedi R$ 30 milhões, de um orçamento de R$ 7 bilhões, e o dinheiro não foi dado. Diego foi escanteado”, afirmou Quaquá.
Denúncias sobre programas sociais
Na mesma ocasião, o prefeito lançou suspeitas sobre a gestão dos programas sociais durante o governo Fabiano Horta, especialmente o pagamento da moeda social Mumbuca, um dos símbolos da política pública do município.
“O que tem de morto recebendo Mumbuca! O que tem de gente que botou endereço em terreno baldio. O que tem de gente que não conseguimos achar, é uma enormidade”, disse, sem apresentar provas.
Críticas avançam sobre Brasília
O rompimento extrapolou o cenário local e passou a atingir quadros com trânsito no governo federal, acendendo o alerta no PT nacional. Sem citar nomes diretamente, Quaquá atacou um “malandro que veio de Brasília”, numa referência a Leonardo Alves, ex-secretário de Planejamento na gestão Fabiano Horta.
Em fevereiro de 2024, a Justiça aceitou denúncia do Ministério Público contra Leonardo Alves, acusado de receber propina em contratos da construção do Hospital Municipal Che Guevara. Quaquá afirmou ainda que o ex-secretário teria tentado direcionar recursos do Fundo Soberano de Maricá para o Banco Master.
“Tentou colocar o Fundo Soberano de Maricá no Banco Master. Master! Nós avisamos que isso ia quebrar. Dois bilhões iriam para o Master, se a gente não interfere”, disparou.
Risco de desgaste com o governo Lula
Outro nome citado nos bastidores é o de Olavo Noleto, ex-secretário de Comunicação de Maricá e ex-presidente da Codemar durante as gestões de Fabiano, embora tenha sido indicado originalmente pelo próprio Quaquá. Noleto foi secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais no governo Lula, como número dois de Alexandre Padilha.
Cotado para assumir papel central na articulação política federal, caso Gleisi Hoffmann deixe o cargo para disputar o Senado, Noleto virou alvo indireto das críticas do prefeito de Maricá. Dentro do PT, há temor de que o conflito local acabe respingando no Planalto e gere desgaste ao presidente Lula.
Histórico de embates e cidade dividida
Maricá, governada há quase duas décadas pelo PT, já passou por duas gestões de Quaquá — agora em seu terceiro mandato — e duas de Fabiano Horta. O novo racha escancara a fragmentação interna do partido no município e aprofunda o isolamento político do prefeito, conhecido pelo estilo combativo e pela longa lista de conflitos com aliados locais, estaduais e nacionais.
Com o gabinete do vice esvaziado, aliados exonerados e ataques que alcançam Brasília, a cidade chega a mais um ciclo eleitoral dividida.