
A exoneração de 206 servidores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro não foi um ato isolado. Antes da publicação do Diário Oficial extra que formalizou as demissões, o presidente estadual do Partido Liberal no Rio, Altineu Côrtes, reuniu os 18 deputados da legenda para alinhar o partido em torno da permanência de Guilherme Delaroli na presidência da Casa. As informações são do jornal O Globo.
Segundo relatos feitos sob reserva, o encontro teve como foco preparar o terreno para um eventual cenário de eleição interna. Entre os exonerados estão comissionados indicados por figuras influentes da política fluminense, como os ex-presidentes da Alerj Sérgio Cabral e Paulo Melo. Na lista aparecem Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, filho e ex-esposa de Sérgio Cabral. A presidência da Casa levanta suspeitas sobre a existência de funcionários fantasmas entre os nomeados.
Nos bastidores, a leitura é de que as exonerações fazem parte da construção de apoio político para uma possível renúncia do presidente afastado Rodrigo Bacellar, do União. A saída voluntária é vista como o único caminho formal para abrir a disputa pelo comando da Assembleia. Pelas regras internas, qualquer vaga na Mesa Diretora precisa ser preenchida em até cinco sessões, por votação entre os deputados. Só podem concorrer parlamentares com mais de 30 anos, já que o eleito passa a integrar a linha sucessória ao governo do estado.
Com Bacellar afastado por decisão do Supremo Tribunal Federal, Delaroli, atual vice-presidente, ocupa interinamente o comando da Casa. Aliados avaliam que, caso a eleição seja deflagrada, ele ganha margem para articular apoios.
A solução inicial após o afastamento foi tratada como protocolar. Com o passar das semanas, porém, o partido passou a defender não só a permanência de Delaroli agora, como também sua consolidação como nome do PL para presidir a Alerj na próxima legislatura, a partir de 2027.
Apesar de ser a maior bancada, com 18 deputados, o PL não tem votos suficientes para garantir sozinho a recondução. Para vencer, são necessários 36 votos, maioria absoluta dos 70 parlamentares. A aposta interna é que o controle de cargos estratégicos amplia o poder de negociação do interino, inclusive junto a aliados de Bacellar que, em uma disputa aberta, poderiam se descolar da orientação formal da legenda.
Fontes do partido descrevem a permanência de Delaroli no comando como uma solução “sem sobressaltos” em meio à crise institucional da Assembleia. A avaliação é que qualquer alternativa fora desse arranjo aumentaria a imprevisibilidade política em um momento sensível para o estado.
O clima, no entanto, azedou com as exonerações. Aliados de Bacellar tentam convencê-lo de que a renúncia agora seria o melhor caminho. Do outro lado, Delaroli tem reforçado sinais de autoridade, deixando claro quem exerce o comando.
Entre deputados, há quem veja na postura da presidência uma tentativa de imprimir uma linha mais dura e moralista, com o discurso de combate a funcionários fantasmas. A agenda, embora gere resistência, conversa com parte do eleitorado do parlamentar.
Mudança de rota
O movimento também marca uma inflexão no plano original do partido. Inicialmente, o PL trabalhava com o nome do deputado licenciado e secretário estadual das Cidades Douglas Ruas para a presidência da Alerj. A estratégia foi revista quando ele passou a ser tratado como principal aposta do senador Flávio Bolsonaro para a disputa pelo governo do estado.
A definição final ainda depende de um alinhamento no topo da sigla. A cúpula do PL aguarda uma conversa entre Altineu Côrtes, o governador Cláudio Castro e Flávio Bolsonaro. O encontro, previsto até o fim do mês, deve amarrar decisões mirando o próximo ciclo eleitoral, quando Cláudio Castro tende a deixar o Palácio Guanabara para disputar o Senado, abrindo espaço para uma eleição indireta em que a Alerj terá papel central.