quarta-feira, 22 de julho de 2026 - 10:24

Quem morava no Morro do Castelo, o bairro que o Rio apagou do mapa

A histórica Catedral de São Sebastião do Morro do Castelo / Foto: Reprodução

A família deixou a casa um dia antes de ela ser demolida. Não havia mais o que esperar. As autoridades já tinham passado, de porta em porta, avisando que era preciso sair. Ao redor, o bairro desaparecia lentamente. Primeiro iam embora os vizinhos. Depois caíam as casas. As ruas conhecidas desde a infância transformavam-se em lama, terra revolvida e ruínas.

Florinda Alói, então com 20 anos, e seu irmão, Francisco Alói Moreno, de 12, haviam nascido no Morro do Castelo. Ali aprenderam a subir e descer suas ladeiras, estudaram, fizeram catecismo, conheceram os vizinhos e acompanharam o trabalho dos pais. Não estavam deixando apenas uma construção condenada. Perdiam o lugar onde toda a sua vida havia acontecido.

Da casa no Castelo, a família seguiu para os barracões de madeira erguidos na Praça da Bandeira. Segundo os irmãos, o novo lugar era muito ruim e nem sequer dispunha de água no início. Anos mais tarde, mudaram-se novamente, desta vez para a Rua Paula Matos, na subida de Santa Teresa.

A história dos Alói é apenas uma entre milhares.

Em setembro de 1921, quando o arrasamento já começava a transformar a paisagem, 4.200 pessoas ainda viviam nos 408 prédios existentes sobre o morro. Eram os castelenses — moradores de um bairro inteiro que a memória do Rio de Janeiro quase sempre reduziu a cenário de fotografias antigas ou a obstáculo removido para a construção da cidade moderna.

Mas quem eram aquelas pessoas? Como trabalhavam? Onde compravam comida? Em que igrejas rezavam? Onde as crianças estudavam? O que acontecia quando alguém adoecia? E, sobretudo, para onde foram quando o lugar em que viviam foi literalmente apagado do mapa?

As respostas aparecem na dissertação O Rio de Janeiro e o Morro do Castelo: populares, estratégias de vida e hierarquias sociais — 1904-1922, apresentada em 2008 pela historiadora Cláudia Míriam Quelhas Paixão ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.

O trabalho, localizado pelo DIÁRIO DO RIO, muda o ponto de observação de uma história que os cariocas pensam conhecer. Em vez de acompanhar somente os prefeitos, engenheiros, sanitaristas e defensores do desmonte, a pesquisadora procura enxergar o Castelo por meio de seus moradores.

Para isso, examinou fotografias de Augusto Malta, jornais, obras literárias, documentos oficiais e centenas de registros da 5ª Delegacia de Polícia, responsável pela área. Recuperou ainda depoimentos de antigos castelenses gravados pelo projeto Arquivo Vivo, do Museu da Imagem e do Som, entre eles o de Florinda e Francisco.

O bairro que existia sobre o berço do Rio

O Morro do Castelo não era um ponto qualquer da cidade.

Foi para aquela elevação, então conhecida como Morro do Descanso, que o núcleo urbano do Rio foi transferido em 1567, depois da expulsão definitiva dos franceses. Protegido pela altura e com vista para a entrada da Baía de Guanabara, o lugar abrigou as principais instituições da cidade colonial: a Casa do Governador, a Câmara, a Cadeia, fortificações, armazéns, igrejas e o Colégio dos Jesuítas.

Ali também foi erguida a Igreja de São Sebastião, inaugurada no século XVI e durante muito tempo sede religiosa da cidade. Nela permaneceram os restos mortais de Estácio de Sá, fundador do Rio, até serem trasladados diante do iminente desaparecimento do morro.

O Castelo nasceu como centro do poder. Com o passar dos séculos, porém, autoridades, famílias abastadas e repartições foram descendo em direção à várzea. A dificuldade de acesso, o transporte de água e o crescimento da cidade contribuíram para transformar o antigo centro administrativo e aristocrático em um bairro predominantemente popular.

No início do século XX, o Castelo já era um lugar de casas simples, sobrados antigos, estalagens e habitações coletivas. Mas também conservava igrejas, instituições, pequenos comércios, escolas, oficinas, árvores, quintais e recantos de aparência quase rural a poucos passos da Avenida Central.

Nas fotografias, roupas brancas secam em varais. Crianças descalças brincam no chão de terra ou sobre o calçamento de pedra. Mulheres carregam latas. Há cabras, cachorros, charretes, pequenas casas de madeira e construções coloniais de um ou dois pavimentos. Ao fundo, surgem o Pão de Açúcar, o mar e os edifícios monumentais da cidade que pretendia ser moderna.

O contraste era quase teatral. Aos pés do morro, o Rio abria avenidas, levantava palácios e imitava Paris. Lá em cima, continuava existindo uma cidade de vizinhança, lampiões, ladeiras, sinos, roupa no varal e água carregada nos braços.

Altar da Igreja de São Sebastião no Morro do Castelo, demolida com o arrasamento do morro / Foto: Reprodução

Uma família entre o mercado, a costura e a igreja

Florinda nasceu no Castelo em 12 de novembro de 1902. Francisco veio ao mundo em 1910. O pai, italiano, era comerciante e mantinha uma barraca de frutas no antigo Mercado Municipal da Praça XV. A mãe era costureira, prestava serviços para uma loja da Rua do Carmo e também atuava como parteira — ofício exercido ainda pela avó e por uma tia dos irmãos.

A família, portanto, ajuda a desmontar a imagem de que todos os moradores formavam uma massa indistinta, sem profissão ou organização. O pai participava da intensa vida comercial da Praça XV. A mãe trabalhava fora e dentro de casa, costurando e auxiliando outras mulheres na hora do parto.

Os filhos estudaram no Colégio Carlos Chagas, localizado na Praça do Castelo. Também fizeram catecismo na Igreja dos Barbadinhos, como era conhecida a igreja dos capuchinhos, onde suas irmãs mais tarde se casariam.

A presença da Igreja marcava o calendário do bairro. A festa de São Sebastião atraía fiéis de várias partes da cidade, que subiam as ladeiras e enchiam o templo. No Natal, havia Missa do Galo e procissão. Durante a Semana Santa, os moradores acompanhavam cerimônias, apresentações e a tradicional malhação do Judas no Sábado de Aleluia. A Festa do Divino era celebrada na Chácara da Floresta.

As famílias também viajavam em trens lotados até a Festa da Penha. Ali, os pais pagavam promessas, rezavam e depois faziam piqueniques. Fé e diversão não apareciam como atividades opostas. Eram partes de um mesmo calendário familiar, profundamente carioca e católico, no qual a procissão, a missa, a comida levada de casa e o encontro com os amigos pertenciam ao mesmo dia.

A última missa na Igreja de São Sebastião foi celebrada em 1º de novembro de 1921. A cidade assistia ao fechamento do templo que guardara por séculos a memória de sua fundação. Pouco depois, seus altares, túmulos e imagens desapareceriam junto com as casas ao redor.

Um bairro de trabalhadores

Os livros da 5ª Delegacia de Polícia permitiram a Cláudia Paixão identificar parte das profissões dos castelenses.

Entre os moradores que aparecem nos registros havia alfaiates, carpinteiros, carregadores, carroceiros, motoristas, empregados do comércio, domésticas, donos de botequim, eletricistas, ferreiros, jornaleiros, lavadeiras, leiteiros, marinheiros, operários, ourives, pedreiros, peixeiros, pescadores, pintores, quitandeiros, sapateiros, vendedores ambulantes e até vendedor de sorvete.

Morro do Castelo visto do mar, século 19 / Quadro de Paulo Carvalho

Não era um bairro de gente desligada da economia da cidade. Era justamente o contrário.

Morar no Castelo significava estar perto de praticamente tudo. Os trabalhadores podiam descer a pé para a Praça XV, para a Rua do Carmo, para a região da Misericórdia, para os estabelecimentos comerciais do Centro e para o mercado. Carregadores, vendedores, domésticas, alfaiates e operários dependiam da proximidade com os lugares onde encontravam serviço diariamente.

A pesquisa conclui que a localização da moradia era vital para a sobrevivência daquela população. Eram profissões dependentes do movimento do Centro, numa época em que a região ainda concentrava não apenas repartições e casas comerciais, mas também grande número de moradores.

A própria vida interna do bairro gerava trabalho. Havia armazéns, quitandas, botequins, alfaiates e outros pequenos estabelecimentos. Parte dos moradores trabalhava no alto do morro; outra parte descia diariamente para o Mercado Municipal e para as ruas comerciais ao redor.

Também havia muitas lavadeiras. A roupa estendida por toda parte, tão presente nas fotografias antigas, não era mero detalhe pitoresco. Era o sinal visível de um ofício exercido por mulheres que dependiam da água, dos tanques e dos varais para sustentar suas famílias.

Água em latas e luz de lampião

Apesar da localização central, as condições de infraestrutura estavam longe de ser confortáveis.

A água não chegava regularmente encanada às casas. Os moradores precisavam carregá-la em latas. Quando o abastecimento falhava no alto do morro, desciam para buscá-la nas proximidades da Santa Casa da Misericórdia. Algumas grandes estalagens mantinham caixas-d’água para atender aos inquilinos.

A iluminação era feita por lampiões. Automóveis não subiam. O acesso ocorria sobretudo pela Ladeira da Misericórdia ou pela Ladeira do Castelo, ambas íngremes. Ainda assim, Florinda e Francisco recordavam que os moradores estavam acostumados à subida e não faziam dela motivo de reclamação.

A vida material era dura. Havia casas mal conservadas, habitações coletivas, ruas sem pavimentação adequada e evidente pobreza. A pesquisa não tenta negar essas condições, mas demonstra que elas não resumem a existência dos castelenses.

Uma casa pobre continuava sendo uma casa. Uma rua sem calçamento continuava sendo a rua onde crianças brincavam, vizinhos conversavam e famílias carregavam suas compras. O bairro não deixava de possuir laços, afetos e identidade apenas porque suas construções não correspondiam ao modelo de elegância desejado pelos reformadores.

A Chácara da Floresta

Um dos lugares mais lembrados pelos irmãos Alói era a Chácara da Floresta, grande conjunto de habitações localizado na subida da Ladeira do Seminário.

A documentação e as fotografias indicam que se tratava de uma das maiores habitações coletivas existentes no Centro. Os antigos moradores, porém, guardavam outra imagem do lugar. Francisco descreveu a Floresta como uma avenida arborizada, fechada por um portão e ladeada por casas.

Na lembrança do castelense, seus habitantes viviam próximos uns dos outros: “Era quase como uma família só”. Quando alguém adoecia ou uma família enfrentava dificuldades, havia um vizinho, um amigo ou até um padre disposto a ajudar.

Essa memória não elimina os conflitos encontrados pela pesquisadora nos registros policiais. Havia brigas, furtos, acidentes, embriaguez e desordens — como em qualquer bairro popular densamente habitado. A própria presença de um posto policial diante da Chácara da Floresta mostra que o poder público vigiava de perto seus moradores.

Mas a história de uma vizinhança não pode ser escrita apenas a partir das vezes em que alguém entrou numa delegacia. Os livros policiais registravam o conflito; não registravam a sopa levada ao doente, a criança observada pela vizinha, a parteira chamada durante a madrugada ou o padre que aparecia para confortar uma família.

Foi justamente por isso que Cláudia Paixão cruzou documentos policiais, fotografias, imprensa e memória oral. Cada fonte enxergava um Castelo diferente.

Aluguel, proprietários e desapropriações

A maioria dos castelenses não era proprietária das casas em que vivia. Na lembrança dos irmãos Alói, aproximadamente 90% dos moradores pagavam aluguel. A dissertação também aponta a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro como uma das maiores proprietárias de imóveis comerciais e residenciais no morro. A reportagem procurou a Mordomia dos Prédios – o departamento de patrimônio da instituição de 444 anos – e o Mordomo Cláudio André de Castro consultou os registros da irmandade e localizou mais de 80 imóveis que possuía a Santa Casa no bairro desaparecido. “Sem contar que tínhamos o Hospital São Zacharias em cima do morro, depois transportado para Botafogo”, diz, explicando que até hoje existe o antigo passadiço que ligava o Hospital à pequena montanha, assim como seus muros de contenção.

Essa circunstância – a quantidade de inquilinos que lá residiam – ajuda a compreender uma das maiores injustiças do desmonte – o drama do despejo. Afinal, não eram imóveis irregulares e nem fruto de ocupação informal.

As indenizações decorrentes das desapropriações eram destinadas aos donos dos imóveis. Mas os proprietários não necessariamente moravam no Castelo. Quem alugava um quarto, uma casa ou uma parte de estalagem podia perder a moradia sem receber qualquer compensação correspondente à ruptura de sua vida.

A casa desaparecia, o proprietário era indenizado e o inquilino precisava procurar outro lugar.

A demolição, portanto, não transferiu apenas prédios e terras. Transferiu famílias inteiras. Rompeu relações de vizinhança e afastou trabalhadores dos locais onde encontravam ocupação. Fez desaparecer um bairro residencial para que o Centro assumisse progressivamente a função quase exclusiva de espaço administrativo, comercial e monumental.

Carnaval, futebol e praia

O Castelo também tinha suas diversões.

Dois blocos movimentavam o bairro: o Castelo de Ouro, de estandarte verde, e o Prazer do Castelo, que usava verde e amarelo. A rivalidade aumentava no carnaval, com disputa de fantasias, torcidas e algumas brigas. A pastorinha vencedora era tratada como princesa pelo restante do ano.

Havia ainda o bloco Miséria e Fome, da Rua da Misericórdia, conhecido por um coral masculino que podia ser ouvido do alto do morro. Seus integrantes mantinham amizade com os castelenses e às vezes subiam as ladeiras cantando.

O bairro também tinha um time de futebol, o Paulistano. A sede ficava no Castelo, mas o campo estava nas proximidades da Praça XV, na área onde hoje se encontra o Museu Histórico Nacional. Nos dias de jogo, muitos moradores desciam para torcer.

As crianças brincavam de roda, amarelinha, cobra-cega e berlinda. Florinda contou que foi ao cinema apenas duas vezes em toda a vida: uma ainda menina e outra quando estava noiva. Em compensação, a rua, as festas religiosas, os blocos e as excursões familiares ofereciam um mundo inteiro de sociabilidade.

Havia também a pequena Praia de Dona Constança, diante da Igreja de Santa Luzia, aos pés do morro. Antes dos aterros afastarem o mar, os castelenses podiam descer de casa e alcançar uma praia no coração da cidade.

A cidade decidiu que o morro precisava desaparecer

Desde o século XIX havia projetos para eliminar o Castelo. Seus defensores alegavam que a elevação impedia a circulação dos ventos, prejudicava o saneamento, escondia a cidade de quem chegava pelo mar e ocupava um terreno valioso demais para permanecer coberto por construções antigas.

Em 1904, durante as reformas do prefeito Francisco Pereira Passos, uma parte do morro já havia sido cortada para a abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco.

A etapa decisiva começou com o prefeito Carlos Sampaio, que autorizou o desmonte em 17 de agosto de 1920. O Castelo tinha cerca de 63 metros de altura e ocupava aproximadamente 184 mil metros quadrados. Seus limites correspondiam às atuais Avenida Rio Branco e ruas Santa Luzia, Misericórdia e São José.

O morro foi desfeito principalmente com poderosos jatos d’água. A terra transformada em lama escorria por canais, era transportada e empregada em aterros. A imagem do Castelo sendo dissolvido pela força hidráulica tornou-se uma das mais impressionantes representações da modernização carioca.

Parte da área liberada recebeu instalações da Exposição Internacional do Centenário da Independência, inaugurada em 7 de setembro de 1922. Mas a desmontagem e a ocupação definitiva do terreno se prolongaram por mais tempo. Fotografias de Augusto Malta ainda mostram trabalhos de conclusão do arrasamento em 1928.

Os defensores da obra falavam em higiene, circulação, embelezamento e progresso. O problema é que, no debate sobre o futuro da cidade, os moradores quase nunca apareciam como donos de uma história digna de preservação.

Lima Barreto foi uma das raras vozes que chamou atenção para a falta de lógica de destruir habitações quando o Rio já atravessava uma crise de moradia. Outros intelectuais criticaram a perda do patrimônio histórico. Mas mesmo boa parte dos que desejavam conservar o morro estava mais preocupada com igrejas, fortalezas, relíquias e lendas do que com as milhares de pessoas que viviam entre elas.

Ninguém acreditava que o Castelo pudesse cair

A demolição não aconteceu de uma vez.

As famílias foram recebendo avisos e deixando suas casas à medida que as obras avançavam. Os capuchinhos estavam entre os primeiros a sair. Outros resistiam pela permanência, pela dificuldade de encontrar moradia ou simplesmente porque não acreditavam que o governo fosse realmente capaz de destruir um morro inteiro.

Não houve uma grande revolta organizada. Houve algo talvez mais silencioso e mais humano: gente esperando até o último momento.

Florinda e Francisco saíram somente na véspera da demolição de sua casa. O endereço em que haviam nascido e passado a infância seria desfeito no dia seguinte.

Os barracões da Praça da Bandeira deveriam receber os castelenses sem destino. Eram construções provisórias de madeira, destinadas às famílias mais pobres. Muitos moradores evitaram permanecer ali. Parte da população buscou casas no Morro do Pinto, no Morro de Santo Antônio e nas encostas de Santa Teresa.

A pesquisadora levanta uma hipótese especialmente bonita: talvez a principal forma de resistência dos antigos moradores tenha sido insistir em continuar vivendo perto do Centro.

Eles podiam ter perdido o Castelo, mas tentaram não perder inteiramente as ruas, os empregos, os mercados, as igrejas e as relações que sustentavam suas vidas.

O que restou

Hoje, quem caminha pelo bairro do Castelo encontra largas avenidas, edifícios públicos, torres comerciais, estacionamentos, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e outros monumentos da cidade republicana.

É difícil imaginar que ali existiram ladeiras cheias de crianças, casas coloniais, lavadeiras, botequins, estalagens, procissões e pequenos quintais. O nome permaneceu. O bairro, não.

Da antiga trama urbana do morro, restaram apenas cerca de 30 metros da Ladeira da Misericórdia, junto à Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso. É um fragmento de pedra espremido entre construções posteriores, quase uma lembrança involuntária da cidade que havia ali.

O Castelo costuma ser lembrado por suas relíquias: o túmulo de Estácio de Sá, o marco da cidade, as igrejas, os jesuítas e a lenda dos tesouros enterrados. Tudo isso merece ser lembrado.

Mas havia outro tesouro sobre o morro: sua gente.

Eram homens e mulheres que acordavam cedo, desciam para o mercado, carregavam mercadorias, lavavam roupas, costuravam vestidos, consertavam sapatos, vendiam leite, frutas, jornais e sorvetes. Eram crianças que estudavam na Praça do Castelo, aprendiam o catecismo, brincavam nas ladeiras e acompanhavam os pais nas festas de São Sebastião e da Penha.

Não viviam num cenário. Viviam num bairro.

Décadas depois, ao recordar o lugar onde nascera e do qual saíra somente quando sua casa estava prestes a cair, Florinda resumiu em poucas palavras aquilo que os planos urbanísticos, os discursos oficiais e as fotografias das demolições não foram capazes de registrar:

“O Castelo era bom. Eu me sentia bem.”

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