O mercado ilegal de medicamentos emagrecedores baseados nos hormônios análogos do GLP-1 (como Ozempic, Wegovy e Mounjaro) avança em ritmo acelerado e coloca o Rio de Janeiro no centro de uma complexa rede de escoamento de produtos piratas. De acordo com investigações e dados da Polícia Federal (PF), o estado fluminense, ao lado de São Paulo, desponta como o principal destino final e centro de consumo de cargas milionárias de canetas e ampolas contrabandeadas que cruzam as fronteiras do país.
A engenharia logística utilizada pelos criminosos para abastecer o comércio clandestino no Rio repete o padrão tradicional do tráfico de drogas e de armas. Os medicamentos saem do Paraguai e entram no Brasil pela Região Sul e Centro-Oeste. A partir dali, as quadrilhas utilizam técnicas como o fracionamento de cargas ocultas em veículos, transporte aéreo para deslocamento rápido de lotes menores entre aeroportos e o uso de “formiguinhas” para despistar a fiscalização nas rodovias até que os produtos cheguem aos compradores do Rio.
Redes sociais e o comércio ilegal na internet
A disparidade de preços em relação às farmácias regulares do Rio tem empurrado consumidores fluminenses para a ilegalidade. Nas redes sociais, influenciadores digitais e farmácias estrangeiras criam conteúdos direcionados ao público brasileiro, ensinando o “passo a passo” para adquirir as substâncias e driblar a alfândega.
Foram identificados perfis que também anunciam, com frete grátis para todo o território fluminense, marcas como Tirzec e Lipoland, medicamentos produzidos com o mesmo princípio ativo do Mounjaro, mas que tiveram a comercialização e importação expressamente proibidas no Brasil pela Anvisa.
Paralelamente, as notificações de efeitos adversos e problemas de saúde dispararam na agência reguladora, embora o órgão pontue que ainda não é possível cravar o percentual exato provocado pelo mercado pirata.
“Como esses dados (de reações) são declaratórios e dependem da qualidade das informações enviadas por cidadãos ou profissionais de saúde, não é possível estabelecer recortes específicos que permitam identificar casos relacionados a medicamentos obtidos por vias ileguis, produtos industrializados ou manipulados, nem segmentar os dados entre reações adversas, queixas técnicas e desvios de qualidade”, esclareceu a Anvisa.
Os perigos do uso sem orientação médica
Especialistas alertam que o uso dessas substâncias sem critério e sem acompanhamento profissional é um risco grave à saúde da população. O endocrinologista Carlos Couri pondera que a chegada dessas fórmulas ao mercado ainda é recente e que o comércio paralelo anula qualquer segurança para o paciente.
“O ponto principal é que quem usa caneta contrabandeada geralmente não faz com acompanhamento médico. Se a pessoa adquire de forma ilegal, usa de acordo com a vizinha, um vídeo da rede social, ou IA”, diz.
Além do contrabando internacional, o mercado fluminense enfrenta a explosão da produção interna em larga escala por farmácias de manipulação. Um levantamento da Anvisa acendeu a luz vermelha ao constatar que o volume de insumo puro importado pelo país seria suficiente para fabricar 20 milhões de doses, montante considerado totalmente incompatível com o mercado regular.
A agência reguladora relembrou que as canetas emagrecedoras pertencem à classe de medicamentos sujeitos à retenção de receita médica.
“O acompanhamento médico é extremamente importante durante a administração desses medicamentos, pois eles possuem uma série de contraindicações para condições específicas de saúde”, afirma a Anvisa.