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Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria – nem santa, nem heroína: a maternidade como esgotamento

Divulgação

Tendemos a tratar a maternidade como algo próximo do divino, associando-a ao discurso do milagre que é a geração da vida. Como consequência, passamos a classificar quase como sublime não apenas a gestação, mas também o próprio status de “ser mãe”. A maternidade assume contornos de dádiva, de honra concedida à mulher, em uma lógica que remete diretamente à figura de Maria e ao privilégio de ter carregado o filho de Deus. A questão que se impõe, contudo, é simples e incômoda: até que ponto esse discurso efetivamente ajuda mulheres?

Afinal, de forma objetiva e franca, salvo em casos de adoção, não existe qualquer teste, prova ou avaliação prévia para alguém se tornar pai ou mãe. Para alcançar esse status, basta ter um filho — sem entrar aqui no mérito sobre a qualidade dessa parentalidade. Como resultado, existem pais e mães que não possuem preparo, estrutura emocional ou mesmo vontade real de ocupar esse papel. Alguns chegam a essa posição por descuido; outros, por sustentarem uma ideia romantizada e profundamente equivocada do que significa criar uma criança e, diante da realidade, acabam se arrependendo.

Como não é possível — nem desejável — controlar quem pode ou não ser pai ou mãe, o despreparo se torna uma consequência natural em muitos casos, mas nos recusamos a admitir que nem todos os pais são, de fato, aptos para essa função.

É precisamente esse desconforto que o filme “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” se propõe a provocar. A narrativa acompanha Linda (Rose Byrne, de “X-Men: Primeira Classe”), uma mãe sobrecarregada que assume quase sozinha os cuidados da filha, portadora de problemas de saúde, enquanto o marido permanece longos períodos trabalhando embarcado.

O filme acerta de forma contundente ao recusar o caminho mais óbvio. Não estamos diante de uma mãe em situação de miséria financeira, acumulando múltiplos empregos e vivendo no limite da sobrevivência. Linda é uma mulher de classe média, com um único emprego — psicóloga —, que se vê consumida por uma sucessão de circunstâncias adversas: o marido distante, pacientes emocionalmente exaustivos, a filha doente e até mesmo a impossibilidade de permanecer em casa após o teto ceder, o que a obriga a dividir um quarto de hotel com a criança. Ao evitar o exagero, o filme cria uma identificação muito mais potente com o público.

Aqui não existe a figura da mãe heroína ou da mãe guerreira. O que vemos é uma mulher sem tempo, sem fôlego e sem perspectiva, que apenas atravessa os dias sem saber como sair daquele estado permanente de esgotamento. Em diversos momentos, Linda busca respostas para perguntas que simplesmente não têm solução. Não há qualquer tentativa de glamurização da maternidade. A rotina a aprisiona de tal forma que ela deixa de viver; ela apenas sobrevive e se julga.

Esse sentimento se estende à forma como o filme retrata a criança. Com exceção de uma cena, o rosto da filha não aparece em tela. O espectador lida apenas com choros, reclamações e demandas incessantes. Assim como ocorre com Linda, a criança deixa de ser vista como símbolo de inocência ou ternura e passa a representar, quase exclusivamente, mais uma fonte de desgaste emocional e cobranças.

Outro acerto do filme está em Linda ser uma psicóloga cuja principal paciente também é uma mãe colapsando. Seja como crítica direta, ironia trágica ou convite à reflexão, o paralelismo é evidente. Linda reproduz para a paciente os mesmos discursos que escuta e detesta, sendo o mais emblemático deles a frase: “você precisa se cuidar para poder cuidar do seu filho”. No entanto, exatamente por ser socialmente impensável que uma mãe falhe, Linda não consegue reconhecer que vive uma situação muito semelhante à daquela mulher. Em vez disso, ela se limita a repetir as imposições e fórmulas vazias que a sociedade exige.

Aqui não se deixa de abordar um clichê recorrente: o do “pai salvador”, aquele que, ao perceber a esposa soterrada por inúmeros problemas, escolhe resolver um único aspecto da crise. Assim, assume imediatamente o papel de herói e cobra reconhecimento, como se tivesse demonstrado quão simples é “dar conta de tudo” — desde que se faça do jeito dele.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” expõe de forma direta como repetimos discursos como “todo pai ama seu filho” e “amor de mãe é incondicional”, mesmo sabendo que essas afirmações estão longe de constituir verdades universais. Talvez insistamos nelas porque questionar essas ideias nos obriga a enfrentar uma possibilidade perturbadora: a de que nossos próprios pais podem não nos amar ou não gostar de ter filhos. E poucos estão dispostos a encarar essa dúvida, ainda que muitos, infelizmente, já tenham uma resposta negativa.

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