
Um estudo técnico-científico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) concluiu que os eventos extremos ocorridos no rio Bracuí, em Angra dos Reis, especialmente as enchentes de dezembro de 2023, não podem ser compreendidos como desastres naturais isolados. O diagnóstico aponta que os impactos resultam da combinação entre condicionantes físicos da bacia, degradação ambiental acumulada e desigualdades socioeconômicas e territoriais, agravadas pela intensificação das mudanças climáticas.
O trabalho foi realizado por recomendação do Ministério Público Federal (MPF), após o embargo judicial de obras emergenciais iniciadas pela Prefeitura de Angra dos Reis em resposta às chuvas de 2023, quando houve mortes, desalojamentos e graves danos socioambientais. À época, o município decretou estado de calamidade pública e contratou intervenções de engenharia na bacia do Bracuí.
Iniciado em junho de 2025, o estudo multidisciplinar teve duração de seis meses e envolveu mais de 30 pesquisadores de Geologia, Engenharia, Biologia e Ciências Sociais. O diagnóstico foi estruturado em três eixos (meio físico, meio biótico e meio socioeconômico) e utilizou metodologias avançadas, como mapeamentos tridimensionais com tecnologia LiDAR, imagens de alta resolução, modelagens hidrológicas e geotécnicas, análises da qualidade da água e estudos ecológicos e sociais.
Segundo o professor Enrico Pedroso, da Faculdade de Geologia da Uerj e coordenador do projeto, as intervenções emergenciais provocaram alterações profundas na dinâmica natural do rio. “Houve severos danos à biodiversidade, à qualidade da água e aos organismos de fauna e flora, além da supressão de mata ciliar, ilhas fluviais e da construção de extensos muros de enrocamento, que engessaram o sistema fluvial”, explica. De acordo com o pesquisador, a retilinização do curso d’água e as obras de contenção rígidas aumentam a velocidade do escoamento, podendo ampliar o risco de inundações e deslizamentos, sobretudo em áreas já ocupadas por moradias e infraestruturas críticas.
Um dos diferenciais do trabalho foi a participação direta das comunidades tradicionais da região, especialmente a Comunidade Quilombola de Santa Rita do Bracuí. Foram realizadas consultas prévias, livres e informadas, garantindo a escuta ativa da população local e a incorporação de suas perspectivas ao estudo. “É um projeto inovador porque alia ciência, técnica e diálogo social, reconhecendo que essas populações dependem diretamente do rio para consumo, lazer e pesca”, destaca Pedroso.
O diagnóstico socioeconômico revelou que os impactos recaem de forma desigual sobre a população, evidenciando um quadro de injustiça socioambiental e racismo estrutural. Precariedade de saneamento básico, exposição recorrente a enchentes e perdas materiais e simbólicas marcam a realidade local. Situada no bioma Mata Atlântica, um dos mais ameaçados do país, a região do Bracuí sofre ainda com intensa pressão imobiliária, potencializada pela proximidade entre as montanhas e o litoral em Angra dos Reis.
O relatório final que foi entregue à Justiça Federal na terça-feira (20), apresenta diretrizes técnicas e científicas para a recuperação das condições ecológicas do Rio Bracuí, com o objetivo de restabelecer, na medida do possível, sua dinâmica natural anterior às intervenções recentes e aos eventos extremos de 2023. “Nosso papel é oferecer subsídios qualificados para decisões públicas mais seguras, baseadas em ciência, que protejam o rio e a população”, afirma o coordenador.
Um dos principais polos turísticos do estado do Rio de Janeiro, Angra dos Reis tem no turismo e na exploração de petróleo pilares de sua economia. Além de contribuir para a segurança hídrica e ambiental da região, o estudo reforça o papel da universidade pública na produção de conhecimento aplicado à prevenção de desastres e à adaptação climática. Em um cenário de intensificação de eventos extremos, o relatório aponta que apenas abordagens integradas e socialmente comprometidas podem transformar o rio Bracuí de um território marcado por desastres recorrentes em referência de recuperação sustentável e justiça territorial.