
Sou transplantado renal desde 2018. Conheço de perto a batalha de quem passa pelo processo de diálise — vivi essa realidade por quase dois anos — e a angústia de estar na fila aguardando por um órgão compatível. Essa experiência pessoal me transformou em um defensor permanente da prevenção, do diagnóstico precoce e da doação de órgãos.
Sempre cuidei da minha saúde e realizo exames regularmente. Ainda assim, existe um marcador fundamental que não integra o hemograma completo: a creatinina, principal indicador da função renal no organismo. Trata-se de um exame simples, acessível e essencial para identificar precocemente alterações nos rins.
A insuficiência renal é uma doença silenciosa, progressiva e perigosa. Em muitos casos, os sintomas só aparecem quando a enfermidade já está em estágio avançado. No meu caso, percebi que algo estava errado apenas quando surgiram sinais mais graves, como a alteração na coloração da urina.
Tive a sorte de contar com um amigo de infância como meu doador. Mesmo assim, o processo não foi simples. A legislação brasileira prioriza doações entre familiares, o que nos obrigou a recorrer à Justiça para comprovar que não havia qualquer vínculo financeiro envolvido.
Sou também fundador do Grupo de Apoio ao Transplante de Órgãos (G.A.T.O.), instituição sem fins lucrativos que atua na orientação, acolhimento e conscientização de pacientes e familiares, além da promoção da cultura da doação.
Como deputado federal, transformei essa vivência em pauta permanente no Congresso Nacional. Sou autor do Projeto de Lei 4.508/23, que altera a Lei de Transplantes (9.434/97) para que prevaleça, legalmente, a vontade expressa da pessoa em vida de ser doadora de órgãos e tecidos. Atualmente, mesmo quando o cidadão manifesta esse desejo, a decisão final ainda cabe à família. O projeto aguarda deliberação do plenário da Câmara dos Deputados.
Segundo o médico da Associação Brasileira de Nefrologia e professor da Uerj Edison Souza, cerca de 20 milhões de brasileiros apresentam algum grau de disfunção renal. O dado mais alarmante é que 90% dessas pessoas não sabem que estão doentes, já que os sintomas podem levar anos — ou até décadas — para se manifestar. Esse desconhecimento eleva significativamente os riscos: pacientes com doença renal têm dez vezes mais chances de morrer precocemente por doenças cardiovasculares do que a população em geral.
A Nefrologia, como especialidade médica, é relativamente recente. Até a década de 1960, pacientes com insuficiência renal crônica — hoje chamada de doença renal crônica (DRC) — praticamente não tinham alternativas terapêuticas. Atualmente, somente no Estado do Rio de Janeiro, existem em torno de 80 centros de diálise, responsáveis pelo atendimento de cerca de 12 mil pacientes.
As principais causas da DRC em adultos são hipertensão arterial, diabetes e glomerulonefrites. Em crianças, predominam doenças congênitas e infecções urinárias. O especialista alerta ainda para sinais importantes que merecem atenção, como alterações na cor, frequência e presença de espuma na urina, e reforça a importância de solicitar a dosagem de creatinina nos exames de rotina.
Informação e prevenção salvam vidas. A inclusão da creatinina como exame básico pode permitir diagnósticos precoces, reduzir complicações, evitar sofrimento e preservar histórias. Um exame simples pode representar a diferença entre qualidade de vida e tratamentos invasivos. Cuidar dos rins é cuidar do futuro.
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