
Há nomes que permanecem gravados na cidade não por estátuas ou bustos, mas pelo próprio traçado urbano. Antônio Eugênio Richard Júnior é um deles. Conhecido como engenheiro Richard — nome eternizado na principal avenida do Grajaú — ele pertence à geração de técnicos que pensou o Rio de Janeiro como cidade antes que a cidade soubesse exatamente o que queria ser. Seu sobrenome, de origem francesa, era pronunciado à moda continental – RICHÁR – como se fazia nos círculos técnicos e administrativos do início do século XX, período em que a influência cultural da França moldava o urbanismo, a engenharia e até a forma de pensar o progresso no Brasil.
Nascido em 31 de julho de 1873, na cidade de Grajaú, no Maranhão, Richard chega ao Rio ainda jovem para estudar na Escola Militar da Praia Vermelha, então um dos principais centros de formação técnica do país. O ambiente era intensamente politizado e marcado pela ascensão dos engenheiros como nova elite intelectual da República, em contraposição aos tradicionais bacharéis em Direito. Ali se formava uma geração convencida de que ciência, técnica e planejamento eram instrumentos fundamentais para reorganizar o Brasil — e suas cidades.
A formação de Richard não se limitou à sala de aula. No Exército, atuou em grandes obras de infraestrutura, participou da construção de estradas estratégicas e ferrovias e teve contato direto com projetos de escala nacional. Fluente em francês, viajou pela Europa e absorveu referências urbanísticas que iam muito além do improviso ainda comum nas cidades brasileiras. Para ele, modernizar não significava apenas abrir ruas ou erguer edifícios, mas sanear, ordenar, ventilar e dar forma racional ao crescimento urbano.
O Rio de Janeiro vivia então um de seus momentos mais dramáticos e fascinantes. Capital da República, passava por reformas profundas: o porto era reconstruído, avenidas rasgavam o tecido antigo da cidade, cortiços eram demolidos e a paisagem urbana se transformava a uma velocidade inédita. Richard observava tudo com olhar crítico. Percebia que o Centro se modernizava rapidamente, enquanto a expansão da cidade para além de seus limites tradicionais ocorria sem método, planejamento ou infraestrutura adequada.
É desse diagnóstico que nasce o projeto que marcaria definitivamente sua trajetória: a criação de um bairro inteiramente planejado, concebido desde a origem como unidade urbana coerente. O local escolhido foi uma extensa área ainda pouco ocupada do Andaraí Grande, aos pés da Floresta da Tijuca, dominada pela paisagem do Bico do Papagaio. Ali, Richard vislumbrou não apenas um loteamento, mas um modelo.
Para viabilizar o empreendimento, buscou recursos fora do país. Durante uma viagem à França, conheceu o banqueiro Marcel Bouilloux-Lafont, que se tornaria seu sócio e principal financiador. Dessa parceria nasceu, em 1911, a Companhia Brasileira de Imóveis e Construções, considerada a primeira grande empresa imobiliária privada do Brasil . O modelo adotado era inovador: venda de terrenos a prazo, prestações equivalentes ao valor de aluguéis, financiamento da construção da casa própria, plantas padronizadas, acompanhamento das obras pelo comprador e respeito rigoroso às normas higiênicas e urbanísticas.
O Grajaú foi concebido segundo princípios que hoje soam evidentes, mas que à época eram quase visionários. Ruas amplas, calçadas ajardinadas, lotes com testadas generosas, controle de gabarito, ventilação cruzada, entrada abundante de luz natural e uma praça central como núcleo de convivência. O traçado seguia lógica geométrica e simétrica, inspirada nos ideais das cidades-jardim europeias, especialmente nas teorias de Ebenezer Howard, então praticamente desconhecidas no Brasil.
O bairro não tardou a florescer. Escolas, clubes, comércio local e intensa vida comunitária se desenvolveram em torno do projeto original. O Grajaú tornou-se referência de urbanismo residencial e foi elogiado por técnicos e urbanistas, entre eles o francês Alfred Agache, responsável pelo famoso plano urbanístico do Rio nos anos 1930, que apontou o bairro como modelo a ser seguido. Não por acaso, durante décadas, o valor do metro quadrado do Grajaú rivalizou com áreas nobres da Zona Sul.
Richard não se limitava a construir: refletia publicamente sobre a cidade. Em entrevistas e artigos, criticava o aumento excessivo dos impostos territoriais, a burocracia municipal e as leis que, segundo ele, acabavam por desestimular a construção e reduzir a oferta de moradias. Alertava que a falta de planejamento e de infraestrutura empurraria a população para soluções precárias, abrindo caminho para a ocupação desordenada — uma análise feita ainda nos anos 1920 e que soa desconcertantemente atual.
Em 1935, quando a principal avenida do bairro foi oficialmente batizada de Avenida Engenheiro Richard, ele discursou emocionado. Recordou o terreno pantanoso drenado, os cursos d’água domados, os operários cobertos de lama, as dificuldades para captar recursos e a persistência necessária para transformar uma área insalubre em bairro saudável. Não falava como um empresário triunfante, mas como alguém consciente do esforço coletivo envolvido em fazer cidade.
Décadas depois, o reconhecimento se consolidaria de forma institucional: o Grajaú foi protegido como Área de Proteção do Ambiente Cultural, não por saudosismo, mas pela qualidade de seu desenho urbano e pela permanência de seus princípios originais. O bairro resistiu ao tempo porque foi pensado para durar.
O engenheiro Richard deixou mais do que ruas e casas. Deixou uma lição urbana: a de que o crescimento das cidades não precisa ser caótico, nem hostil, nem improvisado. Em tempos em que o Rio volta a discutir planejamento, adensamento e habitação, revisitar sua obra é menos um exercício de memória e mais uma aula prática de urbanismo — escrita não em tratados, mas no próprio mapa da cidade.