
Entre restos de plástico, garrafas e outros resíduos acumulados ao longo de décadas, um saco de leite em pó com validade de 1969 chamou a atenção de Mário Moscatelli, biólogo que há anos dedica seu trabalho à defesa da fauna e flora do Rio. O achado aconteceu na última semana na Lagoa do Camorim, na Zona Oeste da cidade, e vem como um lembrete preocupante de quanto tempo o descaso com o meio ambiente pode permanecer submerso.
O leite em pó era do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAM), órgão do Ministério da Saúde extinto na década de 1990, e é apenas um detalhe em meio aos esforços de Moscatelli, que contabilizou mais de 300 toneladas de lixo retiradas das margens do Camorim e de trechos da Lagoa da Tijuca ao longo de dois anos e meio. Para transportar tudo isso seriam necessários de 25 a 37 caminhões compactos; se fossem resíduos volumosos, entre 40 e 60 caçambas.
A Lagoa do Camorim integra o Complexo de Lagoas da Tijuca, margeando comunidades como Rio das Pedras e Muzema, áreas densamente povoadas e sem saneamento básico, e vizinha de condomínios de alto padrão na Barra da Tijuca, como o Península. A poluição da lagoa também contribui para a mortandade frequente de tilápias.
Para enfrentar o problema, a concessionária Iguá prevê remanejar o equivalente a mil piscinas olímpicas de sedimento e lodo acumulados, restaurando os canais naturais que ligam as lagoas ao mar, melhorando a qualidade da água e recuperando o ecossistema.