A Igreja nos reúne na Quarta-Feira de Cinzas para iniciar a caminhada quaresmal, e o primeiro gesto que realizamos não é festivo, mas profundamente simbólico: recebemos cinzas sobre a cabeça. Esse sinal, simples e austero, rompe com a lógica do mundo. Enquanto a sociedade procura esconder a fragilidade humana, a liturgia nos faz encará-la de frente. Escutamos: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Esta é uma das opções de texto para esse momento. Não se trata de pessimismo, mas de lucidez espiritual. Somente quem reconhece sua condição limitada pode abrir-se verdadeiramente à salvação.
A Quaresma começa, portanto, com um chamado à verdade interior. Muitas vezes vivemos distraídos, ocupados, mergulhados em preocupações e projetos, como se a vida fosse permanente. No entanto, a Palavra de Deus nos recorda que tudo passa. O salmista já rezava: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração sábio” (Sl 89,12). A sabedoria cristã nasce quando percebemos que nossa existência precisa estar fundamentada em algo eterno.
A primeira leitura – Jl 2,12-18 – apresenta o grito do profeta Joel: “Voltai para mim de todo o coração” (Jl 2,12). Deus não pede uma mudança superficial, mas um retorno total. Não basta corrigir alguns comportamentos externos; é necessário reencontrar o centro da vida. O pecado, antes de ser uma lista de erros, é o afastamento do coração humano em relação a Deus. Por isso o profeta insiste: “Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes” (Jl 2,13). O Senhor denuncia uma religião feita apenas de ritos sem conversão.
Esse apelo continua extremamente atual. Existe o risco de vivermos uma fé automática: participamos das celebrações, repetimos orações, mantemos tradições religiosas, mas o coração permanece endurecido. A Quaresma vem quebrar essa rotina espiritual. Deus deseja tocar aquilo que escondemos, as áreas da vida que evitamos entregar a Ele.
O profeta ainda revela algo consolador: Deus chama à conversão não para condenar, mas porque é “bondoso e compassivo, lento para a cólera e rico em misericórdia” (Jl 2,13). A iniciativa sempre parte de Deus. Antes mesmo de o ser humano voltar, Deus já o espera. A conversão cristã não nasce do medo, mas da experiência da misericórdia.
Na segunda leitura – 2Cor 5,20-6,2 –, São Paulo fala com intensidade impressionante: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). O apóstolo não diz apenas “reconciliai-vos”, mas “deixai-vos”. Isso significa que a reconciliação é obra da graça. Muitas vezes pensamos que precisamos primeiro mudar para depois nos aproximarmos de Deus; Paulo ensina o contrário: aproximamo-nos de Deus para que Ele nos transforme. Por isso insiste: “Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2).
A Quaresma é esse “agora” de Deus. Não é um tempo simbólico apenas no calendário, mas uma oportunidade concreta de recomeço. Quantas conversões adiadas carregamos? Quantos perdões não concedidos? Quantas reconciliações evitadas? A Palavra hoje rompe nossas desculpas espirituais.
O Evangelho – Mt 6,1-6.16-18 – aprofunda ainda mais essa reflexão. Jesus não rejeita as práticas religiosas tradicionais de Israel, mas purifica sua intenção. Ele afirma: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça diante dos homens só para serdes vistos por eles” (Mt 6,1). O maior perigo da vida espiritual não é apenas o pecado evidente, mas a hipocrisia religiosa — quando fazemos o bem buscando reconhecimento.
Jesus apresenta três caminhos concretos: esmola, oração e jejum. Eles não são práticas isoladas, mas uma pedagogia espiritual completa.
A esmola transforma nossa relação com o próximo. Cristo ensina: “Quando deres esmola, não toques trombeta diante de ti” (Mt 6,2). A caridade verdadeira não humilha quem recebe nem exalta quem dá. Ela nasce da consciência de que tudo é dom. Quando partilhamos, reconhecemos que não somos donos absolutos daquilo que possuímos. A esmola combate a idolatria do dinheiro e cura o coração fechado.
A oração, por sua vez, reorganiza nossa relação com Deus. Jesus orienta: “Entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu Pai em segredo” (Mt 6,6). O “quarto” é o lugar interior, onde não há máscaras. Muitos falam com Deus apenas por fórmulas, mas a oração verdadeira exige silêncio, escuta e sinceridade. É ali que percebemos nossas feridas e permitimos que Deus nos cure. Sem oração, a fé torna-se atividade exterior; com oração, ela se torna encontro.
O jejum completa esse caminho ao transformar nossa relação conosco mesmos. O Senhor diz: “Quando jejuardes, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Mt 6,17). O jejum cristão não é exibição de sofrimento, mas exercício de liberdade. Ele nos recorda que não somos governados pelos impulsos. Em um mundo marcado pelo excesso e pela satisfação imediata, jejuar significa reaprender a desejar Deus acima de tudo. Recorda-nos aquilo que Jesus respondeu no deserto: “Nem só de pão vive o homem” (Mt 4,4).
Percebemos então que a Quaresma toca três dimensões fundamentais da vida: Deus, o próximo e nós mesmos. Quando uma dessas dimensões se desequilibra, a vida espiritual adoece.
As cinzas que recebemos hoje também possuem outro significado profundo. Elas vêm da queima dos ramos do Domingo de Ramos do ano anterior. Aquilo que foi sinal de festa transforma-se em pó. A liturgia nos ensina que até as experiências religiosas podem tornar-se vazias se não conduzirem à conversão permanente. A fé precisa ser renovada continuamente.
Por isso, a Quaresma não é apenas tempo de penitência, mas de esperança. Deus não nos chama para olhar o passado com culpa, mas para abrir o futuro com confiança. O profeta Ezequiel já transmitia esse desejo divino: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo” (Ez 36,26).
Talvez o maior convite deste dia seja abandonar a superficialidade espiritual. Deus não quer pequenas reformas exteriores, mas uma transformação profunda. Ele deseja que passemos de uma fé de costume para uma fé de decisão, de uma religião herdada para uma relação viva com Ele.
Se caminharmos sinceramente durante estes quarenta dias, chegaremos à Páscoa compreendendo melhor o mistério da cruz e da ressurreição. Então se cumprirá em nós a promessa: “Criai em mim um coração puro, ó Deus, e renovai em mim um espírito firme” (Sl 50,12).
Que esta Quaresma não passe por nós sem nos mudar. Que as cinzas de hoje não sejam apenas um rito, mas o início de uma vida nova, para que, reconciliados com Deus, possamos celebrar a Páscoa como homens e mulheres renovados em Cristo.