
O presidente interino do Rioprevidência, Nicholas Cardoso, admitiu, nesta quinta-feira (12), problemas de governança no fundo previdenciário dos servidores estaduais e anunciou a contratação de auditoria externa independente para revisar contratos, investimentos e procedimentos internos do instituto.
A declaração foi feita durante reunião com representantes do Fórum de Servidores Estaduais do RJ (Fosperj) e do movimento Recomposição Salarial Já, na sede do órgão, no Centro do Rio. No encontro, Cardoso reconheceu fragilidades nos mecanismos de controle e afirmou que pretende rever práticas administrativas consideradas insuficientes diante do volume e da complexidade das operações financeiras realizadas pelo fundo.
O movimento ocorre em meio às repercussões do investimento de quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do Banco Master, operação que passou a ser alvo de questionamentos de servidores e de órgãos de controle.
Investimento sob escrutínio
Nos últimos anos, o Rioprevidência ampliou sua exposição a ativos de crédito privado, incluindo letras financeiras emitidas pelo Banco Master. As aplicações, realizadas em diferentes operações, somaram aproximadamente R$ 1 bilhão, montante expressivo dentro da carteira do fundo, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores do estado.
A estratégia, segundo técnicos do mercado, envolveu a busca por rentabilidade acima da média dos títulos públicos, em um cenário de restrição fiscal e necessidade de equilíbrio atuarial. No entanto, a concentração relevante em papéis de uma única instituição acendeu alertas sobre critérios de diversificação e análise de risco.
O histórico recente do Rioprevidência inclui episódios de forte exposição a operações estruturadas e antecipações de receitas futuras, sobretudo com royalties do petróleo, que no passado impactaram o fluxo de caixa do fundo. Embora a atual gestão sustente que os investimentos seguiram normas vigentes, representantes do funcionalismo cobram maior transparência sobre os critérios técnicos adotados.
Auditoria externa e novas regras
Cardoso informou que a diretoria executiva aprovou uma nova portaria endurecendo as regras para o credenciamento de instituições financeiras aptas a operar com recursos do Rioprevidência. Entre as mudanças previstas estão a exigência de parâmetros mais rigorosos de governança, avaliação de risco e compliance.
Paralelamente, foi iniciada a contratação de auditoria externa independente, que deverá examinar contratos financeiros, operações de investimento e procedimentos internos. A medida, segundo o presidente interino, tem como objetivo “restabelecer confiança” e fortalecer os mecanismos de controle.
A decisão de recorrer a uma auditoria externa é vista como tentativa de sinalizar compromisso com maior transparência, em um momento de pressão política e institucional sobre a gestão do fundo.
Recuperação judicial de valores
Durante a reunião, Cardoso também informou que uma ação judicial já resultou na recuperação de cerca de R$ 80 milhões relacionados a consignados da empresa CredCesta, ligada ao Banco Master. Os valores estão depositados em conta judicial enquanto o processo segue em tramitação.
O episódio envolvendo a CredCesta adicionou tensão ao ambiente interno do instituto, ao reforçar críticas sobre a necessidade de monitoramento mais rígido de operações vinculadas a instituições financeiras privadas.
Mesa permanente de diálogo
Ao final do encontro, foi proposta a criação de uma mesa permanente de diálogo entre o Rioprevidência e entidades representativas dos servidores. A iniciativa busca estabelecer canal contínuo de prestação de contas e acompanhamento das decisões estratégicas do fundo.
Responsável por administrar um dos maiores fundos previdenciários estaduais do país, o Rioprevidência volta ao centro do debate sobre gestão de recursos públicos. A auditoria externa deverá se tornar peça-chave para avaliar responsabilidades, revisar práticas e definir os rumos da política de investimentos daqui em diante.