Coluna Efeito Borboleta

E AQUELES OLHOS AZUIS

Em meio a toda confusão político-econômica brasileira ou vice versa, parodiando o antigo questionamento popular: “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, reflito se a crise na economia gerou uma crise política ou se a crise política é um oportunismo daqueles que desejam o poder, usando como pretexto a crise econômica.
Cada brasileiro tem o seu olhar específico sobre o que estamos vivenciando todos os dias e acima daquilo que entendemos ser certo ou errado, o que conta é o respeito e a tolerância, demasiadamente propagada e ainda não compreendida por muitos e tantos outros.
Mas meu objetivo aqui não é falar da política e das escolhas de cada um, mas o que ela pode causar à cultura, não com relação a verbas, recursos e financiamentos, mas ao principal da cultura, as pessoas.
Um indivíduo incontestável nesse panorama, com largo currículo e contribuição para a cultura nacional brasileira, esteve em evidência por duas vezes, nos últimos tempos, em acontecimentos bastante polêmicos. Na primeira, um flagrante desrespeito em meio a uma confusão de rua.
A agressão verbal e moral que sofreu o compositor, escritor, teatrólogo, cantor… e muitas outras coisas mais que poderiam ser usadas para classificar o grande Chico Buarque.
“O cara é realmente um grande!”
Entretanto, foi agredido de forma aviltante por um grupo de jovens que o acusaram pela sua escolha política.
O líder desse grupo era o abastado jovem Alvarinho, filho do empresário Álvaro Garneiro, amigo particular de Ronaldo, o Fenômeno. Ambos se envolveram num polêmico vídeo veiculado pela internet, onde Ronaldo recebia de Alvarinho, mordidinhas no pescoço, gerando piadas que sugeriam uma relação homossexual entre eles, obviamente rechaçada por ambos. Enfim… Esses são os exemplos dados por esses tipos de pessoas!
O caso extrapolou o âmbito político para cair na linha da falta de respeito e da agressividade.
Chico Buarque, que saía de um restaurante no Leblon, estava acompanhado por um grupo de amigos, o qual incluía o cineasta Cacá Diegues. Em entrevistas, Diegues mostrou toda sua indignação pelo ocorrido.
Com toda sua educação e gentileza, “o Chico” tentou argumentar, mas não foi ouvido, apenas xingado e acuado.
O foco desta análise não é a opção política dos envolvidos, nem mesmo se a opinião de Chico é mais relevante que a dos jovens em questão, embora, de longe, a experiência de vida de um, nem se compara a dos outros envolvidos na questão.
Grande perda para esses jovens! Penso.
Não que por ser Chico Buarque, em sua condição de intelectual e celebridade nacional, não pudesse ser questionado pela sua posição política.
Não.
Chico pode e deve ser questionado sim, mas com argumentos. Com certeza, aquele grupo de jovens perdeu uma chance única, talvez, de discutir posições políticas e sociais com uma das mentes mais produtivas do nosso país.
Ganhariam muito em aprendizado de vida. Ouviriam a opinião de alguém que viveu muito para contar. Situações que esses jovens nem sonharam em viver.
Perderam a chance de aprender com quem tem a ensinar e com certeza não pretendia catequizar ninguém, apenas dialogar.
Outro fato, envolvendo o artista, trouxe para o foco novamente a sua posição política.
Chico Buarque voltou atrás e proibiu o ator e diretor Claudio Botelho de usar suas músicas no musical “Todos o musicais de Chico Buarque em 90 minutos”, isso depois de Claudio Botelho ter chamado no palco, de ladrões, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula, provocando uma reação negativa da plateia, que revidou com gritos de cunho político, em apoio aos políticos em questão.
No primeiro conflito, de imediato, digo com pesar e sem muito pensar: perderam aqueles jovens que se recusaram a convidarem Chico Buarque para sentarem com eles, para um papo.
No segundo episódio, Claudio Botelho chegou a comparar a censura sofrida por José Celso Martinez pelos militares, quando encenou Roda Viva, do mesmo autor, ao que aconteceu com ele. Chico Buarque reprovou veementemente o comentário de Botelho.
Claudio Botelho, envergonhado, pediu desculpas pelo seu destempero. Chico aceitou as desculpas, mas ainda não voltou atrás em sua proibição. Provavelmente o público ficou sem um espetáculo que prometia grande sucesso.
Quero muito ver o Brasil superar suas dificuldades.
Cada brasileiro digno quer ver essa mudança e precisa dela.
Disso tenho convicção.
Minha opinião é que uma disputa política para levar vantagem em cima de uma crise econômica é atrasar o desenvolvimento.
Que governe quem foi escolhido para governar.
Que a oposição cumpra o seu papel digno de fiscalizar e que possamos superar democraticamente a crise que nos assola e que tem tristemente oprimido o povo brasileiro.
Isso não pode continuar.

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