Participação de mulheres aumenta no mercado cervejeiro

Participação de mulheres aumenta no mercado cervejeiro

Com o avanço do setor e a mudança na percepção da bebida, empresas passaram a abrir mais espaço para profissionais femininas.

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Se alguém entrar hoje em uma turma do curso de Sommelier de Cervejas da Doemens Akademie, no Brasil, verá a sala dividida igualitariamente entre mulheres e homens. Não era assim cinco anos atrás, quando a instituição alemã, pioneira no mundo nesse tipo de formação, chegou ao país. Na época, apenas entre 10% e 20% das cadeiras em salas de aula eram ocupadas por alunas. Mas o jogo está virando. Além de povoarem cursos, as profissionais cervejeiras são cada vez mais reconhecidas no mercado.
Uma das mulheres pioneiras no mercado cervejeiro brasileiro é a sommelière e mestre cervejeira Cilene Saorin, responsável pelos cursos Doemens no Brasil, Espanha, Portugal e países latino-americanos. Cilene trabalha em cervejarias desde 1992, quando era estudante de Engenharia de Alimentos e peitou marmanjos para conseguir uma das cinco vagas de estágio – a única conquistada por uma mulher – em uma grande empresa do ramo. “Eu tive dificuldades grandes no início. Na maturação, que era uma adega fechada com cerca de 0ºC, me botavam pra puxar com o rodo os fermentos pra eu desistir, mas eu não saía de lá enquanto não puxava o último rodo”, conta.
Cilene passou por várias cervejarias importantes no Brasil, empresas inglesas e alemãs renomadas. Hoje, ela vê grande evolução no mercado de trabalho para as mulheres. Além das mudanças na sociedade, ela lembra que em meados dos anos 2000 a cerveja era um produto pouco valorizado e que precisava de uma mudança de status. E foi com isso que empresas começaram a mudar sua postura. Em vez de apenas usar a imagem feminina em propagandas, Cilene lembra que as cervejarias começaram a buscá-las como profissionais e torná-las também consumidoras de seus produtos. “A mulher tem um papel importante na guinada na percepção de valor da bebida, que até pouco tempo estava às traças”, ressalta.
Mercado está mais aberto
Atualmente, as mulheres têm conseguido mais oportunidades no mercado, mas ainda há o que melhorar. “Eu talvez não sinta tantos problemas porque tenho 24 anos de experiência e me respeitam mais. Mas eu converso com meninas jovens e elas me contam de cantadas absurdas que ainda ouvem”, diz. Além disso, ela cita problemas comuns no mercado de trabalho em geral, como os salários mais baixos pagos para mulheres, ainda um obstáculo.

Outra sommelière e mestre cervejeira renomada brasileira que precisou enfrentar preconceitos foi Kathia Zanatta, uma das fundadoras do Instituto da Cerveja Brasil. Ela acredita que a popularização das profissões cervejeiras ajudará no crescimento do interesse feminino. “Nesse mercado tem diminuído o machismo, hoje há várias mulheres que trabalham em fábricas”, analisa. Para ela, as mulheres têm se sentido mais confiantes para buscar a área, especialmente na sommelieria. “O ambiente produtivo ainda inibe, ou por falta de conhecimento, ou pela falta de background de formação técnica. Mas não existe profissão só de homem ou só de mulher”, ressalta.
Apesar disso, Kathia diz que mulher cervejeira ainda causa um pouco de espanto. “O meio cervejeiro melhorou muito. O ainda existe não é preconceito, mas surpresa. Quando vou fazer um jantar com executivos, eles olham pra mim e pensam ‘nossa, você vai falar de cerveja?’”.
Mulheres reivindicam seu lugar
A carioca Alessandra Rocha Pena da Silva viu no mercado cervejeiro uma oportunidade para ter seu próprio negócio. Ao sair de uma grande empresa de telecomunicações, Alessandra começou a pensar em possibilidades de empreendimentos com seu marido, que já tinha interesse em cervejas. Ela resolveu fazer o curso de sommelier. “Tinha uma ideia muito embrionária de abrir um negócio nosso e cerveja era uma das primeiras opções”, conta.
A partir da formação como sommelière, ela mudou seu ponto de vista em relação à bebida e formatou seu novo empreendimento, uma loja-bar com cerca de 200 rótulos, que se prepara para abrir. “Eu achava que cerveja era uma coisa muito simples e sem graça. E vi que não é nem simples, nem sem graça. Há muitas possibilidades de harmonização, sabores. É um mundo enorme e prazeroso”, afirma.

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