COLUNA: EFEITO BORBOLETA

# OCUPA MENTES

 

É interessante a vida quando papéis se invertem, se equivalem ou até mesmo se complementam.

Precisam situações extremas para percebermos que isso pode acontecer e quando acontece, nos vemos aturdidos e paralisados, até que a compreensão vem e ao nos tirar da catotonia, nos faz perceber que não importa a posição que ocupamos na vida, mas que o interessante é a união entre as partes de um todo.

Toda essa reflexão é para deixar claro algo que está em andamento e que possui essa beleza da união entre forças.

Refiro-me à greve dos professores estaduais do Rio de Janeiro e à ação #ocupa dos alunos das escolas do estado.

Curiosamente, até tudo isso se deflagrar, a relação entre alunos e professores, dentro das escolas, estava bastante ruidosa. Professores estressados e alunos desinteressados. Professores imbuídos no compromisso de fazerem o seu trabalho, cumprirem seus compromissos curriculares e os alunos… inertes, sem pretensões intelectuais, dentro de seu mundo particular e “nem aí” para os estudos. Será?

Na verdade é tudo isso e nada disso.

Bastou uma sacodidela no senso comum cotidiano. Uma “batida de frente” com o statu quo, para que tudo mudasse de figura.

Essa sacodidela foi a greve.

A greve colocou muitas questões em pauta e em xeque.

Primeiro, há muito que não se acreditava que os profissionais da educação pudessem se rebelar “violentamente” contra a ordem estabelecida de cima para baixo há muito tempo.

Professores calados e oprimidos disseram: NÃO!

Gritaram bem alto: CHEGA!

Queremos ser respeitados. Precisamos ser reconhecidos, pois temos valor. Não nos submeteremos a ordens espúrias e degradantes. Exigimos nossos direitos e vamos lutar por eles.

Assim iniciou a greve.

Desacreditada pelo poder e pela própria classe, visto que alguns, mesmo diante do caos instalado e a dura realidade diante dos olhos e dos bolsos, ainda insistem em sustentar os desmandos do governo.

Mas fomos adiante, contra tudo e contra todos que fossem contra nossa causa justa e inegociável, no respeito aos nossos direitos postos em risco.

E nossa decidida posição fez com que fossemos acreditados e entendidos como movimento de verdade e de grandiosidade inquestionável.

Mas eis que um encantamento aconteceu.

Aqueles que até então eram nossas mazelas, opróbrio do infortúnio, causa de nossas insatisfações, tornaram-se continuidade de nossos braços, amplificadores de nossas vozes e armas de nossas batalhas.

Os alunos.

Saíram de suas esferas de coadjuvantes e tornaram-se protagonistas do espetáculo.

Gritaram para que todos ouvissem que mexer com professores era comprar briga com eles.

Nossa voz ganhou amplitude. E eles foram além.

Além de apoiarem os professores, ditaram suas próprias exigências. Mostraram que sabem lutar,  que sabem ser cidadãos, que sabem exigir direitos e como fazer para serem ouvidos.

O movimento #OCUPA é a maior demonstração de conhecimento do que precisam e querem conquistar.

Ficamos boquiabertos, mas gratificados por vermos bem diante de nossos olhos, que todo o trabalho que viemos realizando até agora produziu frutos. Talvez, não aqueles que acreditávamos serem os frutos bons, da estação…. Mas que preparamos indivíduos capazes de se entenderem dentro da sociedade, reconhecendo plenamente os papéis que ocupam.

Enfrentaram o poder. Exigiram mudanças e a cada dia conquistam seu espaço de forma irrevogável.

Nos tornamos todos um só bloco de luta.

Somos a educação exigindo respeito aos nossos direitos.

Tenho a absoluta convicção de que não seremos mais os mesmos depois dessa batalha árdua, porém, consciente.

Sabemos que alunos têm força de vontade sim é que dentro das regras de respeito e hierarquia teremos que respeitar uns aos outros, buscando atender as necessidades de ambos os setores dessa luta gloriosa.

Não sei exatamente até que ponto iremos, mas sei que vamos adiante. Certos de que a vitória é nossa, da Educação e de todos aqueles que a fazem, com o objetivo de formarmos um país mais justo e igualitário.

Não tem mais essa de divisão de quem manobra quem.

Temos a certeza do que almejamos e do caminho que precisamos percorrer para alcançarmos nossos objetivos.

Avisamos ao poder constituído que não somos mais os mesmos. Que as relações professores, alunos, comunidade e governo, seguirá, a partir de agora, outra dialética.

Não mais a falsa dialética da vontade do governo, que manda e todos obedecem, mas aquela que todos os envolvidos são ouvidos e respeitados. Sem medos ou receios. Ameaças ou agressões. Cabeça baixa e troca de favores, como hoje, temos presenciado tristemente por parte de muitos dos nossos pares, que não se entendem assim, julgando-se em posições fantasiosamente superiores.

Fim da pressão e da submissão.

Acredito nesse final feliz e transformador.

Muitos movimentos vitoriosos mundo afora, começaram com alunos.

Em homenagem e apreciação à primeira escola ocupada no estado.

#OcupaMendes

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